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A festa do blues nos lançamentos de Peter Frampton e Savoy Brown

Combate Rock

26/07/2019 06h45

Marcelo Moreira

É o blues da despedida, mas despejando esperança e irradiando otimismo. Dois britânicos veteranos do blues e do rock ensaiam a aposentadoria, mas com um pouco de relutância, a julgar pela boa qualidade de seus mais recentes lançamentos.

Ambos guitarristas talentosíssimos, Peter Frampton e Kim Simmonds (sempre acompanhado pelo seu Savoy Brown) destilam versatilidade, virtuosismo e técnica com belas doses de cinismo e sarcasmo. Tocam fácil e sempre sacanenenado, piscando para o ouvinte e dizendo para a concorrência: "Consegue chegar perto?"

Frampton é um dos gênios da guitarra de todos os tempos. As novas gerações o confundem com um cantor pop açucarado por conta das baladas melosas tipo "Babe I Love Your Way", ainda hoje massificada nas emissoras de FM especializadas em flashbacks.

Será que esses caras se deram conta de ir atrás dfa versão ao vivo hardo g rock de "Breaking Are All the Rules"?

Aos 69 anos de idade e um dos fundadores do excepcional Humble Pie, ao lado de Steve Marriott (ex-Small Faces), o guitarrista inglês naturalizado norte-americano surpreendeu ao anunciar que iria se aposentar em breve por cnta das consequências de uma doença degenerativa descoberta há alguns anos.

"All Blues" é uma coletânea de clássicos do blues escolhidos a dedo dentro do vasto repertório que moldou a carreira de Frampton. É um disco leve, sereno e descontraído, onde o guitarrista brinca de cantar e de tocar nada lembrando que é um disco de despedida.

Não é um mero disco de covers. O músico é reverente até certo ponto, mas gosta de desconstruir canções de tal forma que algumas vezes elas ficam irreconhecíveis.

"I Just Want To Make Love to You", célebre sucesso de Muddy Waters, aqui ganha ares jazzísticos, assim como outro hit, "She Caught The Katy", que é torcida de tal forma que poucos reconhecerão a bela versão antiga dos Blues Brothers.

"The Thrill Is Gone" ganha uma guitarra chorosa, cujo lamento faz jus à versão de B.B. King, por exemplo.

Cantando muito bem e mostrando intimidade com as canções, Frampton passeia por fraseados limpos e intensos, algo que ocorre na mítica "Going Down Slow", onde recebe o amigo Steve Morse (Deep Purple) para duelos bacanas de guitarra e trocas de riffs.

"All Blues", classico absoluto que já teve versão de Miles Davis, é o retrato do músico de bem consigo mesmo, ainda mais quando brinca de tocar com outro amigo, o mestre do jazz Larry Carlton.

Em uma das várias entrevistas que deu sobre o álbum, Peter Frampton brincou dizendo que tinha se divertido muito fazendo o seu "testamento" em "All Blues".

Neste caso, a modéstia não lhe caiu bem. O suposto último álbum é um tributo ao bom gosto e a um gênero musical que ajudou a mudar a história da cultura mundial.

Pelos lados do Savoy Brown não há clima dedespedida, mas nunca se sabe quando se trata do atual trio, fundado há 53 anos e na ativa desde sempre.

Kim Simmonds, o guitarrista, vocalista e líder, deixou a banda em longos hiatos para se dedicar uma errática carreira solo errática, com resultados muito parecdos ao da banda.

O guitarrista de 71 anos parece, no entanto, não se preocupar com isso, muito menos com os recentes problemas de saúde. Sua guitarra continua incandescente e com vitalidade em um blues rock envenenado.

Levando adiante o boogie contagiante que sempre caracterizou algumas bandas inglesas, como Status Quo e Foghat, Simmonds e o Savoy Brown repetem a fórmula consagrada em "City Night", o mais recente CD.

Não espere nada retumbante ou muito inspirado. É blues pesado e acelerado, mas de muito bom gosto. Ao lado de Pat DeSalvo (baixo) e Garnet Grimm (bateria), oguitarrista leva adiante o lema de "menos é mais".

Ora econômica, ora incendiária, a guitarra de Simmonds é o motor da banda, em torno da qual gira toda a dinâmica da banda. O timbre e característico e marcante, como na abertura, "Walking on Hot Stones".

A mesma pegada pode ser observada em "Don't Hang Me Out To Dry" e na contagiante "Payback Time". "Red Light Mama" não foge do padrão, apesar de ser mais acelerada, enquanto que blues mais tradicional marca presença em "Neighbourhood Blues" e na faixa-título.

As canções do Savoy Brown são típicas para se ouvir em momentos agradáveis e festivos, além de ser uma grande celebração do blues e do rock. "City Night" está longe de ser uma despedida, a julgar elo pique de Kim Simmonds, mas, se acabar se convertendo em uma "saideira", o álbum terá cumprido bem o seu papel.

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Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

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