PUBLICIDADE
Topo

Resistir é fundamental, mas contra-atacar é vital para deter o retrocesso

Combate Rock

27/11/2019 06h52

Marcelo Moreira

(FOTO: DIVULGAÇÃO/EDU LAWLESS)

A palavra de ordem desde que a presidente Dilma Rousseff sofreu o processo de impeachment, em 2016, é resistência. Primeiro foi a esquerda, denunciando o suposto golpe parlamentar que levou o vice-presidente Michel Temer ao poder.

Depois a palavra serviu para tentar evitar a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para, em seguida, ser aplicada diante da avalanche conservadora de inspiração fascista que elegeu o atual presidente da República.

Ainda que de forma tímida, a palavra voltou a ser usada durante o Rock in Rio 2019 e pelo pessoal de teatro na defesa de Fernanda Montenegro, atacada de forma nojenta e asquerosa pelo atual secretário especial de Cultura do governo federal, Roberto Alvim.

Com o tsunami de retrocessos patrocinados pela medieval administração do governo federal e de Estados dominados pela peste conservadora, resistência virou a palavra da moda, e não mais apenas pelo pessoal da esquerda.

Moderados e liberais começam a perceber o tamanho do problema que é o ineficaz, incapaz e incompetente governo Jair Bolsonaro e também admitem articular algum tipo de "resistência".

Dependendo da boca de quem a pronuncia, o termo pode significar um punhado de coisas ou literalmente nada. Serve apenas de muleta para seres arrependidos, perdidos ou meramente desesperados.

Nos shows de rock de bandas de protesto, notadamente punks e de hardcore, resistência é o lema proferisdo a cada música ou a cada show.

A ameaça concreta de censura em vários campos do conhecimento e da arte arrepia músicos de todos os matizes, e parece que finalmente o rock começa a sair da letargia e mais artistas importantes do gênero começam a se manifestar. Um bom sinal.

A questão é que o avanço conservador de extrema direita (com um viés religioso perigosíssimo) é avassalador e está cada vez mais difícil de ser contido. E eis que surge o problema da palavra "resistência".

A primeira coisa que vem à cabeça uando falamos em resistir é uma atitude defensiva – resistir a um ataque ou a investidas. Remete a um comportamento reativo, ou de espera, o que, de certa forma, concede uma vantagem ao atacante/agressor. Se não houver plano de contra-ataque, a situação tende a se perpetuar.

A jornalista e historiadora norte-americana Barbara Tuchman, ganhadora do prêmio Pulitzer de jornalismo/literatura de 1963, ilustrou bem a questão em seu maravilhoso livro "Canhões de Agosto", onde ela narrava e analisava os primeiros 30 dias da I Guerra Mundial, em 1914, nos frontes ocidental e oriental.

Ela destrinchou os erros graves da estratégia de recuo das forças aliadas (soldados franceses e ingleses) quando da invasão alemã da Bélgica e do norte da França, com seguidas derrotas.

Os generais franceses, perdidos, falavam em resistência o tempo todo enquanto so soldados fugiam e recuavam nas regiões dos rios Somme e Marne. Foi por iniciativa de um general de campo que a maré virou ao enxergar uma brecha/falha no avanço alemão.

Sem esperar as ordens demoradas do quarte-general principal, atacou com tudo o flanco direito dos exércitos do genetral alemão Von Kluck e infligiu diversas derrotas seguidas ao longo do fim de agosto e começo de setembro de 1914, o que foi fundamental para a reorganização dos aliados para parar o avanço do inimigo e vencer a primeira batalha do Marne, o que evitou a vitória alemã.

A palavra resistência embute tambm o conceito de contra-ataque, senão a atitude defensiva perdurará eternamente ou indefinidamente.

A cultura e a educação assumiram a vanguarda da resistência, ainda que de forma desconexa e descoordenada. Manter a resistência sem contra-ataque é uma maneira de "normalizar" os absurdos que são cometidos diariamente contra os direitos humanos e a liberdade de expressão, apenas para ficar nestes quesitos.

Para recuperar o terreno perdido e eliminar a vantagem midiática do conservadorismo perverso que domina a nossa sociedade é necessário mais criatividade e mais iniciativa, seja nos parlamentos, seja nas ruas.

Resistir é fundamental, e os discursos roqueiros são a prova disso, mas temos de avançar mais e mais rápido. É hora de começar a pensar seriamente em ações para mostrar que resistência não é só defesa, mas movimento e estratégia. O rock nacional, em, todas as vertentes, é parte importante dessa "revolução".

 

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

Sobre o Blog

O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
Contato: contato@combaterock.com.br

Blog Combate Rock