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Combate Rock

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A ignorância mostra a sua força em Gramado

Combate Rock

30/08/2019 06h33

Marcelo Moreira

Uma vaia é tão importante para um artista quanto um aplauso demorado. A vaia também mostra que a obra atingiu o seu objetivo, ainda que de outra forma. O artista conseguiu não só chamar a atenção, mas também teve o prazer de incomodar e provocar sentimentos diversos.

Todos os dias os artistas são achincalhados, xingados e vaiados, e não necessariamente por conta do valor da obra artística, infelizmente. Faz parte. O problema é quando a vaia tem como origem e motivação somente a questão político-ideológica.

Por isso é que o Festival de Cnema de Gramado, edção 2019, ficará marcado para sempre na história brasileira como o ponto sem volta de uma eventual reconciliação cultural e social dentro de nossa civilização.

As agressões aos artistas de cinema e teatro que fizeram protestos silenciosos pelas ruas da cidade da serra gaúcha é o marco incontestável da decadência da civilização brasileira – se é que isso existe ou existiu.

A organização do festival emitiu uma nota repudiando as agressões. Houve gente que inclusive pediu a transferência do evento para outra cidade gaúcha ou mesmo para outro Estado.

É evidente que o protesto com caminhada pelas ruas de Gramado tinha como um dos alvos o governo federal capitaneado pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL). Os rompantes de censura oficial foram os motivos do protesto, que agregou tambem nensagem em defesa da Amazônia e contra a leniência no combate às queimadas e incêndios florestais.

Indignados, vários moradores da conservadora cidade gaúcha atiraram pedras de gelo e restos de comida nos manifestantes, em uma demonstração brutal de selvageria e indecência. Segundo os números do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), Bolsonaro teve inacreditáveis 82% dos votos na eleição presidencial de 2018 na cidade.

Se isso não é a prova cabal de a extrema-direita apoiada (e que apoia) o governo federal espalha o ódio, então o que mais seria?

Gramado é uma cidade pequena, mas é um microcosmo da sociedade brasileira que demonstra como os fundamentos democráticos estão sendo vilipendiados. É a burrice e canalhice em seus estados mais crus e abjetos.

Não se trata de respeitar ou deixar de respeitar os resultados da eleição do ano passado. Isso é algo superado, tanto que o presidente eleito assumiu e tenta governar – não consegue por pura incapacidade, misturada com enorme incompetência, mas essa é outra questão.

Artistas protestam nas ruas de Gramado (EDISON VARA/PRESSPHOTO/DIVULGAÇÃO/)

O desrespeito à opinião alheia está sendo consolidado como arma política e argumento de debate, onde o adversário se torna inimigo, onde quem pensa diferente está sempre, necessariamente, contra e precisa ser combatido.

A constrangedora agressão aos artistas nacionais e estrangeiros – nomes importantíssimos do cinema argentino foram alvejados também, por exemplo – foi uma clara manifestação de autoritarismo.

Então a população de Gramado, ajoritariamente bolsonarista, apoia a censura às artes e à cultura? Acha normal o que estpa acontecendo na Amazônia, que mostra o dobro de áreas queimadas e devastadas em relação aos dados do ano passado?

A vaia é legítima e até necessária em quase todos os casos. Por mais que fossem constrangedoras no caso da caminhada em Gramado – seria a explicitação do conflito/confronto entre inteligência e ignorância, minha opinião -, as vaias seriam (e foram) legítimas. Afinal, tem gente que conseguiu a proeza de vaiar Pelé. A agressão é que torna tudo turvo, escuro, jogando tudo na vala comum da briga de arquibancada.

Provocas calafrios esse tipo de ataque quando lembramos que muitos artista de teatro foram agredidos em São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre em plena ditadura militar, nos anos 70.

Os autores das agressões eram agentes oficiais da repressão, mas também gente comum que se organizava em grupelhos extremistas para bater elo simples prazer de bater em "subversivos", como menciona esse texto interessante sobre a resistência do teatro durante o regime militar.

São muitos os indícios de retrocesso e de perigo que ameaçam os opositores ao caos institucional e social instalados pelas hordas bolsonaristas e incentivadas por um governo federal irresponsável, que dilapida o patromônio diplomático brasileiro, estimula a destruição do meio ambiente para favorecer um capitalismo predatório e que investe contra a ciência, a educação, a cultura e as artes.

O aparelhamento de órgãos como Ancine (a agência reguladora do cinema) e da Secretaria de Cultura do Ministério da Cidadania deram o "tom" de como será o "procedimento oficial" para que projetos artísticos e culturais sejam incluídos em editais para captação de recursos.

Sem cerimônia, a política desvirtuada  desse governo infame institui a censura e barra qalquer tentativa de projeto que "atente contr a moral e os bons costumes", seja lá qual for o entendimento dos ignorantes que terão o poder da caneta.

Essa política será seguida, inevitavelmente, por governos municipais e estaduais que conseguiram chegar ao poder na onda conservadora e extremista do bolonarismo.

Esperemos, portanto, textos cada vexz mais dirigidos e restritivos nos editais de liberação de verbas públicas para projetos culturais.

Esperemos a declassificação ou recusa, por exemplo, de concessão/autorização de captação de verbas para shows ou gravação de CDs de bandas que "não preencham os requisitos de mora e bons costumes" na mensagem transmitida.

É o caso de peças de teatro ou espetáculos de dança que tenham temas ligados ao segmento LGBT, como ocorreu com todos os editais já aprovados pla Secretaria de Cultura do Ministério da Cultura – a ordem para o cancelamento de editais para projetos para referido segmento foi dada diretamente pelo Palácio do Planalto.

Portanto, você que tem banda de thrash metal/hardcore contestatória ou tem uma blasfema banda de black metal encontrará extrema dificuldade para inscrever seus projetos nos milhares de editais municipais de cidades do interior de São Paulo e Minas Gerais. Programas de incentivo à cultura estaduais? Esqueça.

Tão deprimente quanto esse estado nojento de coisas é ver músicos de rock se divertirem e aplaudirem as agressões ocorridas em Gramado. Gente baixa e mau-caráter que jamais imaginará que um dia esse tipo de coisa vai se vltar contra ele.

Um deles, um guitarrista paulistano, vibrou nas redes sociais com arremessos de pedras de gelo contra os artistas e lamentou que ninguém tivesse se ferido com gravidade. Um músico carioca não chegou a tanto, mas sentenciou: "Se tivessem se preocupado apenas em trabalhar, nãso teriam sido agredidos".

É deplorável mais uma vez me deparar com artista incitando o ódio e apoiando qualquer tipo de censura – pior, fazendo apologia do autoritarismo e atacando quem combate a censura.

Não aprenderam nada, não entenderam nada. Nunca se deram ao trabalho de ler as letras ou a história das bandas que veneram e que amam, no caso dos roqueiros.

A vergonha vai demorar muito para acabar – se é que vai acabar.

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

Sobre o Blog

O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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