Topo
Combate Rock

Combate Rock

Liberdade de expressão depredada e a força da normalização do absurdo

Combate Rock

06/08/2019 06h35

Marcelo Moreira

Reprodução da capa da edição brasileira do livro "Liberdade de Expressão: Dez Princípios para Um Mundo Interligado", de Timothy Garton Ash

"Dizem que ela existe pra ajudar/Dizem que ela existe pra proteger/Eu sei que ela pode te parar/Eu sei que ela pode te prender/Polícia para quem precisa/Polícia para quem precisa de polícia/Dizem pra você obedecer/Dizem pra você responder/Dizem pra você cooperar…"

Os Titãs foram certeiros ao cometer uma crônica precisa e urbana sobre a sanha autoritária e repressiva da Polícia Militar paulista em 1986, um ano depois do fim da ditadura militar.

Entretanto, os resquícios ditatoriais persistiam ainda naquele momento e caíram de forma pesada e inacreditável sobre dois músicos da banda, Arnaldo Antunes e Tony Belloto, pegos com alguma quantidade de droga – um ataque desproporcional, seja pela quantidade pequena apreendida, seja pelos métodos asquerosos utilizados na abordagem e na prisão, que guardam alguma semelhança à perseguição a Mick Jagger e Keith Richards em 1967, na Inglaterra.

Como sabemos hoje, os dois stones ficaram presos por algumas horas por posse de drogas, mas foram a julgamento, sendo que Jagger foi condenado (resultado que foi revertido e anbulado posteriormente) e Richards absolvido.

O protagonismo autoritário dos aparatos policiais repressivos pelo Brasil tem chamado a atenção de todos pelos métodos ilegais e pelas flagrantes violações da Constituição nas abordagens que torpedeiam a liberdade de expressão.

Por enquanto, os alvos preferidos são os movimentos sociais ligados a partidos e instituições de esquerda e os shows de rock, onde recentemente tivemos pelos três casos de intimidação e ameaças a músicos e bandas – em Brasília, em Bonito (MS) e em Belém (PA). Um encontro de mulheres do PSOL foi invadido por PMs, que informaram estar "monitorando" o evento.

Pois um novo e preocupante precedente foi aberto na Arena Corinthians, em Itaquera, na zona leste de São Paulo, durante o jogo Corinthians e Palmeiras, no últim domingo.

Um torcedor corintiano foi preso por ter protestado contra o presidente Jair Bolsonaro (!!!!!!). Policiais militares o detiveram, algemaram e o lvaram para uma delegacia volante (Jecrim) para lavrar o boletim de ocorrência.

O torcedor xingou Bolsonaro? Sim, e com todo o direito do mundo de xingar quem quer que seja numa democracia, ainda mais quando se trata de uma pessoa autoritária, violenta e incompetente.

"Eu perguntei para a delegada qual o crime havia cometido, eu apenas expressei meu protesto político. Ela me respondeu que ali [no estádio] não é lugar para isso", afirmou o torcedor ao portal UOL.

Não há registro de que a tão diligente PM paulistana tenha sido tão zelosa e prestativa quando dos xingamentos ocorridos em vários protestos de direita ocorridos entre 2013 e 2016 contra a presidente Dilma Rousseff (PT), possivelmente uma das figuras públicas mais xingadas e vilipendiadas do Brasil.

Ninguém foi preso por xingá-la nas ruas, ao que se sabe, especialmente aquela malta de gente indecente vestida de amarelo. Por que então prender quem xinga Bolsonaro?

Em nota oficial ridícula e estapafúrdia, a PM paulistana justificou a ação covarde e ilegal de seus agentes como uma "ação para evitar tumultos", já que o tal torcedor teria provocado a ira de outros, que discordavam da atitude. A nota oficial pode ser lida ao final do texto.

Portanto, em alguns lugares do Brasil, está oficializada a proibição de manifestações contrárias públicas contra o presidente Jair Bolsonaro. A desobediência levará à prisão.

Se isso ocorreu em um estádio de futebol, vai ocorrer nas fila de entrada de um show de rock, de uma peça de teatro de um museu.

O discurso de ódio e as constantes erosões de que o mundo bolsonaro perpetra contra a Constituição estimulam e parecem legitimar, na visão desses jagunços, qualquer medida coercitiva para calar e silenciar os opositores.

(E lembrar que os estádios de futebol foram o local privilegiado em que populações podiam se manifestar publicamente contra os ditadores, incusive xingá-los sem correr muitos riscos de prisão, como na antiga União Soviética, na antiga Hungria comunista, na Espanha amordaçada pelo ditador fascista Francisco Franco, na antiga Iugoslávia comunista…)

É o que podemos concluir em relação à covardia cometida conrra a BNegão & Seletores de Frequência, quando seu show no Festival de Bonito (MS) foi interrompido por policiais militares após as duras críticas ao governo federal.

O mesmo pode ser dito em relação ao cancelamento arbitrário do Facada Fest, em Belém (AP), minutos antes do evento quando PMs alegaram que o local do festival não tinha "alvará" para unvcionar e nem receber "aquele tipo de espetáculo". Ora foi só coincidência que o cartaz do Facada Fest, um evento punk, fizesse alusão negativa ao presidente Bolsonaro…

Vai piorar, e muito. O rock e artistas de outros segmentos musicais que são engajados sofrerão com o aumento da perseguição a quem ousar criticar o presidente que é tratado como "soberano".

Lamentavelmente, a repercussão é ruim para quem defende a liberdade de expressão e luta contra o fascismo. A maioria das pessoas, nas redes sociais, trata o caso do torcedor como mera curiosade, uma anedota político-esportiva dos nossos tempos. É mais um sintoma da normalização do absurdo, que vai empurrando com força cada vez maior para o abismo.

Leia a íntegra da nota da Secretaria de Segurança Pública sobre o caso:

"A SSP esclarece que todas as polícias de São Paulo são instrumentos do Estado Democrático de Direito e não pautam suas ações por orientações políticas. Entre as atribuições da Polícia Militar estão: proteger as pessoas, fazer cumprir as leis, combater o crime e preservar a ordem pública. No caso em questão, a conduta foi adotada para preservar a integridade física do torcedor, que proferia palavras contra o presidente da República, o que causou animosidade com outros torcedores, com potencial de gerar tumulto e violência generalizada. A pasta informa que não houve prisão, mas a condução dele por policiais militares ao posto do Juizado Especial Criminal (Jecrim), instalado dentro da Arena Corinthians, onde foi registrado boletim de ocorrência não criminal e depois liberado para voltar a assistir à partida de futebol."

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

Sobre o Blog

O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
Contato: contato@combaterock.com.br