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Föxx Salema: 'Resistir é mais do que opção, é uma necessidade'

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2002-07-20T19:07:00

02/07/2019 07h00

Marcelo Moreira

O rock pesado como redenção, como antídoto para a depressão e como instrumento fundamental da liberdade de expressão. São inúmeras as histórias de pessoas que adotaram tais preceitos para levar a vida, e geralmente de modo dramático, mas são poucos os exemplos tão claros e bem-sucedidos como o da cantora pauoista Föxx Salema.

Divulgando o seu primeiro álbum, o  recém-lançado "Rebel Hearts", a cantora transexual acabou involuntariamente se destacando nos últimos dias por conta de uma constatação que se transformou em pesados ataques homofóbicos.

Após receber informações de que emissoras de rádio e sites estavam se recusando a divulgar seu trabalho por conta de suas posições políticas – é uma militante assumida de esquerda e dos direitos humanos -, fez um desabafo nas redes sociais por conta do que considerou boicote e se tornou alvo das feras de internet.

Extremistas de direita e apoiadores do presidente Jair Bolsonaro a xingaram de tudo e fizerma ataques violentos a sua condição de mulher transexual.

Natural de Bragança Paulista  (SP) e hoje radicada com o marido em Belo Horizonte (MG), Föxx Salema conversou com o Combate Rock a respeito dos ataques que vem sofrendo desde que começou a divulgar "Rebel Hearts".

Föxx Salema (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Combate Rock – A que ponto chegamos, hein? Era pra estarmos falando somente do seu primeiro CD…

Föxx Salema – Eu imaginava que o meu trabalho era o que deveria prevalecer, mas os tempos em que vivemos não deixam dúvidas de que o preconceito e o ódio estão em toda parte. Minhas posições políticas se tornaram mais importantes e definidoras do que meu trabalho artístico.

Como mulher trans, imagino que esse tipo de coisa não é novidade em sua vida, infelizmente.

Claro que não, mas o mundo avançou tanto no quesito de direitos humanos e civis que, mesmo com o preconceito e ódio persistindo, pudéssemos estar livres de tais comportamentos. No entanto, a eleição presidencial do ano passado recolocou o extremismo de todos os tipos de volta ao jogo e a série de retrocessos não para. É um perigo não só para as pessoas mas também para a democracia. Sempre tive essa barreira da homofobia/transfobia mesmo dentro do rock e do metal. Sempre tive de lidar com o preconceito, mas é preocupante o que ocorre atualmente. Jà que recebi ataques de cunho religioso recentemente e de gente que diz curtir black metal, ou seja, gente que ouve música com ataques às religiões cristãs. Uma coisa muito estranha.

Como essa campanha contra você começou? Houve mesmo boicote ao seu trabalho?

Eu considero que houve boicote, pois eu recebi mensagens em fóruns de sites e de web rádios afirmando que não divulgariam meu trabalho por conta das minhas posições políticas, são claras e explícitas nas minhas redes sociais. Sou de esquerda, sempre fui. Defendo desde sempre pautas relativas aos direitos humanos e aos direitos civis, com respeito às minorias e contra a disseminação de ódio. Por isso, faço oposição ao atual governo federal e a governos que têm viés de direita e fazem apologia de ideias que beiram o fascismo e o fundamentalismo religioso. Ninguém é obrigado a ouvir meu trabalho, a divulgá-lo ou analisá-lo para resenhas. O que eu espero é que haja profissionalismo e que minha obra fale por si, seja ela considerada boa ou ruim. Só que claramente o trabalho está sendo rejeitado porque "descobriram" minhas posições políticas e, em seguida, minha condição de mulher transexual. Nas inúmeras mensagens que li por aí, isso fica claro.

E os ataques homofóbicos vieram na esteira dos comentários que criticavam suas posições políticas.

Sim. São coisas pesadas, de um ódio absurdo e preconceito total. Comentários bastante agressivos nas minhas redes sociais, derrubaram meu perfil pessoal alegando que Föxx Salema não era meu nome verdadeiro. Houve rádios que tocaram minhas músicas e, de uma hora para outra, pararam de executar após lerem as minhas postagem e "descobrirem" quem eu sou. Os ataques deram uma amenizada, mas não sei até quando isso vai durar. Um coisa eu sei: resistir é a opção que abracei. Existem alternativas? Não sei, msa por tudo o que passei em minha vida e minha carreira, a resistência é a melhor opção, pois se tornou uma necessidade.

Como serão os seus shows daqui para a frente? Teme que haja problemas de preconceito, boicote ou mesmo de segurança?

Infelizmente eu nã posso descartar essa possibilidade, embora eu tenha sido muito bem recebida em vários contatos que tenho feito aqui em Belo Horizonte com casas noturnas e promotores de shows. É triste, mas não dá para descartar essa hipótese.

Falando de música: em algum momento da sua carreira a sua opção sexual ou a opção por ser uma mulher transexual atrapalhou a sua carreira?

Sim, isso aconteceu. Em vários momentos as pessoas não entendiam essa questão de ser mulher trans. Acabavam sempre resvalando na questão da homossexualidade. Não sou homossexual, sou uma mulher trans que optou por não fazer mudança fisiológica no corpo. Como sou uma pessoa autêntica, todos sabiam quem eu era e minha condição. Mesmo assim tive dificuldades em conseguir alguns shows e manter uma formação fixa na banda por conta da minha condição. Vivi em uma cidade conservadora de interior, então foi muito difícil. Agora estou feliz porque minha carreira em Belo Horixzonte está deslanchando em todos os sentidos.

"Rebel Hearts" é seu primeiro álbum completo. A definição da sua voz deixou você feliz no trabalho?

Minha tessitura de voz é, organicamente, de um tenor, ou seja, é masculina. Meu alcance é de duas oitavas e meia, jpa cantei em coral. Entretanto, o metal é minha vida, fui muito elogiada no show recente em homenagem a André Matos. No álbum eu compus todas as músicas e tive um apoio sensacional dos músicos e produtores com quem eu trabalhei. O fato de eu ser uma trans não vai afetar as reações ao meu trabalho, espero que isso não influncie isso. Minhas referências, como André Matos e Rob Halford (Judas Priest), cantam muito agudo e muito alto, então não me preocupo se vão achar que é homem ou mulher que está cantando.

Há alguma música de "Rebel Hearts" que tem um viés político?

Tem sim. "Rebel Hearts" e "I" abordam esse lado, falando de liberdade e de posicionamentos diante da vida. São canções fortes e pesadas, com guitarras com timbres destacando o peso. "Vengeance Will Come" fala de um relacionamento abusivo e "Emotional Rain", a única balada do álbum, é muito pessoal, fala de uma tentativa de suicídio – eu tentei em 2001. Tem temas políticos, creio até que há um predomínio deles, mas também é um álbum muito pessoal.

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

Sobre o Blog

O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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