Topo
Combate Rock

Combate Rock

Como a desconstrução da política afetou miseravelmente o rock

Combate Rock

2007-05-20T19:07:00

07/05/2019 07h00

Marcelo Moreira

A desconstrução da política perpetrada pelas hordes conservadoras e bolsonaristas está dando resultados especialmente como forma de desviar as atenções para as dificuldades político-administrativas do governo federal atual.

Dois episódios recentes demonstram o sucesso dessa desconstrução em um nível mais específico, dentro do rock: o cancelamento arbitrário de um show de metal gratuito e beneficente na avenida Paulista e no incidente envolvendo a banda Torture Squad na cidade de Araraquara.

Nos dois episódios assustam a total falta de informação de quem se dispõe a opinar sobre o assunto e a crença estapafúrdia de que não se deve misturar política e música (??????).

No caso da avenida Paulista, a ção arbitrária de fiscais da prefeitura para impedir o show de um tributo a Ronnie James Dio, que atraiu 3 mil pessoas minutos antes do show causou espanto, perplexidade e certa indignação, mas não revolta, por mais que as explicações da administração municipal sejam pouco convincentes.

Nas redes sociais choveram críticas desinformadas alegando que a banda não tinham cumprido as normais municipais. "Por que apenas esse show foi cancelado en os outros da avenida Paulista ocorreram normalmente? Por que essa mania de politizar tudo?", escreveu um internauta em uma rede social.

Em Araraquara, interior de São Paulo, um militante de uma organização de esquerda provocou a banda Torture Squad após os integrantes terem feito um rápido discurso contra a classe política em razão de gritos e xingamentos ao presidente Jair Bolsonaro. Houve um princípio de tumulto e o militante foi retirado do local por seguranças.

Torture Squad em São Bernardo: banda foi vítima da intolerância política e da ação de milícias virtuais (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Podem parecer incidentes isolados e loclaizados, mas não são. É a consequência natural, no ambiente da cultura e das artes, da polarização política e da estratégia de confronto e disseminação do ódio implementada pelo mundo bolsonarista e conservador.

Como o mundo da música ainda está acomodado e hipnotizado, a cada incidente com motivação política chama mais a atenção. Foi o que aconteceu em recente entrevista de João Gordo, vocalista dos Ratos de Porão, onde ele criticava duramente  fãs de metal que apoiavam Bolsonaro e as políticas propostas por evangélicos que certamente se reverterão contra os fãs do subgênero musical.

"Esses metaleiro vão se arrepender ao apoiar conservadores e pastores evangélicos que um dia vão propor ações contra o próprio metal. Quero ver o que vão dizer esses caras quando os pastores conseguirem proibir bandas internacionais de tocar alegando que 'adoram o diabo'. Quero ver quando bandas nacionais forem perseguidas por causa dos temas extremos que cantam", disse o cantor.

Surpreendentemente, João Gordo foi massacrado nas redes sociais não por quem defende Bolsonaro e os evangélicos, mas por quem professa que "músicos e artistas não devem falar de política. Têm apenas de se limitar à música e mais nada."

De onde esses seres execráveis tiraram esse pensamento de "total isenção, sem opinião e sem forma"? Em que mundo esses tontos vivem? Será que essa gente acha que o mundo gira em torno das historinhas de dragões, contos de fada e de espadinha que muitas bandas do gênero cantam?

Esses "isentões" são muito mais perigosos do que os roqueiros/metaleiros que defendem a extrema-direita e restrições às liberdades individuais e de expressão.

Essa gente é mais nociva porque serve de massa de manobra sem pensamento crítico. São comodistas que não gostam de confronto e de debates, que têm medo de argumentos que desmontem sua frágil existência. São fracos que temem uma "derrocada" nacional por conta das pessoas que "torcem contra".

É assustador porue, a julgar por manifestações em redes sociais nos últimos dois meses em relação a vários assuntos ligados à liberdade de expressão e comentários políticos no mundo da música, o número de pessoas que pensam dessa maneira é muito maior do que se poderia imaginar.

É gente desinformada e ignorante (para ser elegante) que acha que ter opinião é crime. Que músico deve apenas cantar sobre o barquinho na lagoa, a areia na praia e sobre o coração partido pela namorada/o. Que jornalista não pode ser crítico, que deve se limitar a relatar a notícia (sempre pelo viés que mais convier ao crítico que espalha esse tipo de opinião estúpida) e não deve opinar sobre nada.

Provavelmente, esses isentões são pessoas avessas aos livros, que são medíocres em tudo e que se informam por redes sociis deturpadas e grupos podres de WhatsApp.

É gente preguiçosa que nunca abriu um jornal e mal sabe da existência de portais noticiosos na internet. É gente que acha que ainda existem comunistas no mundo, que o PT distribuiu o kit gay e que queria retirar os filhos das famílias e interná-los em campos de doutrinação. É gente que chafurda na total indigência intelectual.

Tudo isso é resultado de uma propaganda de ódio que está dando certo, desconstruindo a política, a cultura, as artes e o conhecimento.

Os efeitos práticos disso são a asfixia financeira das universidades e das entidades que promovem eventos culturais que envolvem, invariavelmente, obras críticas ao pensamento conservador destrutivo e intimidador que predomina atualmente em nossa sociedade.

A guerra cultural contra o conhecimento, que estaria infestado de esquerdistas e marxistas no mundo todo, é o primeiro passo para jogar o país nas trevas e implantar uma ditadura comportamental e moral ditadas pelo pior conservadorismo e moralismo de teor religioso.

Lamentavelmente, ainda são poucas as vozes que estao se levantando contra esse eestado de coisas na políca e nas áreas de educação e cultura.

O corte de 30%em todo o orçamento das universidades e institutos federais de ensino decretados pelo governo Bolsonaro deveriam ser motivo para um levante nacional de proporções gigantescas contra a medida e contra o governo. No entanto, de forma passiva, a sociedade está calada, exceto por manifestações pontais aqui e ali, geraçmente feiras por gente que será diretamente afetada pelos cortes.?

Essa passividade é mero comodismo, apoio tácito às medidas devastadoras tomadas por um governo atabalhoado e incompentente ou simplesmente medo das consequências de uma eventual retaliação do conservadorismo.

Desde o ano passado o Combate Rock vinha alertando sobre os perigos de cairmos nesta pasmaceira em que o governo conservador iria "passar o trator" em políticas eficazes e importantes em várias áreas. De forma quase inacreditável, tínhmos razão.

A desconstrução está avançando rapidamente e a sociedade ainda está aparvalhada e inerte diante dessa ofensiva. O mundo da música assiste a tudo sem reagir e exortando a todos a deixar como está.

Quanto a nós, "Let It Be" será sempre e apenas uma boa canção dos Beatles. O pensamento crítico é uma das principis armas da sociedade para manter a democracia em funcionamento. E democracia é algo que incomoda bastante os arautos da desconstrução. É com ela que os conservadores serão derrotados.

 

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

Sobre o Blog

O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
Contato: contato@combaterock.com.br