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'Rio de Lágrimas' une rock progressivo com experiência audiovisual

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05/05/2019 06h57

 Ellen Fernandes – publicado originalmente no site Roque Reverso

Um projeto que reúne escrita, arte visual e música, inspirado em questões éticas e na estrutura dos mitos como narrativas universais e presentes. Essa é uma das propostas de "Rio de Lágrimas – Fábula" (Editora Red Clown Books), criado para a graphic novel homônima escrita por Renato Shimmi, com ilustrações de Glaucus Noias, composições de Bruno Moscatiello e participações de músicos de diferentes gerações do rock progressivo brasileiro.

O CD e a HQ integram o primeiro volume do projeto "Brazilian Progressive Rock Soundtrack", da Red Clown Books.

Desde 2017, ela investe em publicações independentes que tratam das questões políticas da América Latina, sonorizadas pela tradição do rock progressivo brasileiro.

O álbum foi apresentado na íntegra na web rádio Friday Night Progressive NY (http://fridaynightprogressive.com/home/).

A estreia no Brasil foi na WebRádio RST Rock, uma das principais voltadas ao rock progressivo no Brasil, situada em Curitiba, com alcance de mais de 100 mil pessoas de vários países.

"O Acordo", "Batalha dos Minotauros", "Rio de Lágrimas", "Morte do Sonho" e "O Último Ato" são as canções da trilha instrumental composta por Bruno Moscatiello (Kaoll) em parceria com Willy Verdaguer (Secos & Molhados / Humahuaca), Eduardo Aguillar (Vitral), Claudio Dantas (Quaterna Réquiem), Saulo Battesini (Solo), Kleber Vogel (Kaizen), Fabio Ribeiro (Blezqi Zatsaz), Fred Barley (O Terço / Dialeto), além das participações de Erico Jones, Nana Mathias, Edu Varallo e Tainan Cristina.

O álbum tem também a remasterização de 'Sob os Olhos de Eva', trilha sonora da banda paulistana Kaoll baseada no livro homônimo do escritor e mestre em Filosofia, Renato Shimmi, com ilustrações de Zé Otávio.

Trata-se do quarto trabalho autoral do grupo que está na ativa desde 2008 e foi composta por Bruno Moscatiello (guitarra); Yuri Garfunkel (flauta transversal); Rodrigo Reatto (bateria); Gabriel Costa (baixo); Janja Gomes (percussão) e Fabio Leandro (teclados).

Em entrevista exclusiva ao Roque Reverso, Renato Shimmi conta que "Rio de Lágrimas" faria parte de uma série de contos, usando estruturas narrativas típicas das fábulas, sobre questões éticas recorrentes. "A sua proposta, em específico, seria tratar da obsessão pela prosperidade enquanto acúmulo, abundância e desperdício. Na verdade, Rio de Lágrimas não era a primeira história, mas acabou sendo escolhida após o início das reformas neoliberais que se iniciaram em 2016. Vimos uma atualidade para o tema", detalha.

A temática aborda a promessa de abundância como forma de apropriação da riqueza, a estrutura dos mitos como narrativas universais e presentes e entre as inspirações está o artigo "O Minotauro global", do Yanis Varoufakis.

Sobre a proposta da obra, ele afirma que a imagem do rio ajuda a evocar três premissas importantes inspiradas na obra do Yanis Varoufakis. Em primeiro lugar, ele cita que o  homem perverte os sentido da natureza quando intervém buscando riqueza,  transformando dádivas em algozes. Em seguida, ressalta que o conceito de riqueza está atrelado à obsessão pelo acúmulo, não pela distribuição.

A terceira questão aponta que a abundância na economia, o excesso de dinheiro que quer se reproduzir em si mesmo, como capital inútil, depende da alienação do povo em um sistema cíclico de esgotamento. "De desidratação do indivíduo em meio a uma natureza apropriada pelo grande capital. A natureza não dialoga mais com os indivíduos e o capital para se reproduzir de forma inútil se alimenta da vida dos que são explorados, um sistema que se alimenta da vida das pessoas, enfim. O dinheiro é apenas um instrumento desse sistema, a circulação de riqueza é pervertida como um mecanismo de dominação", observa.

A distribuição do CD é feita exclusivamente pelo selo Masquerecords, inclusive para o exterior. No Brasil, é possível adquirir o álbum no próprio site da Masquerecord e em lojas especializadas com foco em rock e instrumental.

O livro poderá ser adquirido inicialmente no site http://www.redclown.com.br/riodelagrimas/ , pela Amazon e nas livrarias Espaço Itaú e Zaccara, em São Paulo.

Ilustrações e sons

A edição do livro foi feita por Lelo Lourenzo, responsável também por apresentar o artista gráfico carioca Glaucus Noia que assumiu as ilustrações e usou desde as técnicas tradicionais de aquarela e nanquim como o uso de lâminas afiadas e métodos pessoais como pincéis afiados, misturas com cera de vela, giz de cera de abelha, com os elementos básicos da pintura.

"Também gosto muito do uso de material orgânico que aparece em várias páginas, como café e sal. A arte é uma obra de arte, literalmente, e quase um tratado artístico", garante Shimmi.

Como uma das propostas do selo Red Clown é explorar o universo lúdico, Shimmi avalia como essencial o papel da música. Desta forma, buscou parcerias com selos e produtores independentes. "A parceria com o Bruno Moscatiello iniciou com o meu primeiro livro, 'Sob os olhos de Eva, que criava um desafio de tornar em produto musical a discussão sobre o poder mítico da desobediência na formação do pensamento político de cada um. A conexão foi forte e resultou em uma série apresentações que misturavam música, palestra e artes visuais."

Fundador da banda Kaoll, o guitarrista e compositor Bruno Moscatiello conta que ficou impressionado com a trama retratada em "Rio de Lágrimas" e sua alusão simbólica à realidade do capital em degradação e suas trágicas consequências.

"Ele apresentou alguns esboços do Glaucus Noia e os aspectos fantasiosos me chamaram a atenção, o que poderia dar um bom norte para a trilha. Inicialmente propus ao Renato uma trilha simples apenas com guitarras e teclados. No decorrer das composições percebi que as músicas pediam outros instrumentos. É algo que rimos atualmente já que os arranjos caminharam para formas bem mais complexas e elaboradas.Todo processo de produção totalizou um ano e meio", comenta.

Segundo Moscatiello, assim que Shimmi passou as sinopses dos capítulos, na mesma hora ele gravou um áudio no celular cantando a dramática melodia que viria a ser a faixa título."Essa melodia principal deu margem natural para a criação dos outros temas onde mantive o mesmo tom grave por ser abaixo das tonalidades tradicionais do rock, buscando uma profundidade mais soturna para a proposta sonora. Aí alterei cada trilha nas dinâmicas e arranjos para dar o movimento necessário de cada capítulo", detalha.

Questionado sobre as inspirações para as melodias, afirma que a fonte é o erudito. "É um estudo diário que faço para desenvolver a sensibilidade aos caminhos harmônicos que essa música possibilita. Nos riffs, não posso mais dizer que Sabbath é uma inspiração porque me alimentei tanto dos bicordes de Tony Iommi que para mim já é algo natural que não penso para criar, simplesmente acontece", admite.

Do rock progressivo, o músico declara que o contato com bandas e músicos como Saulo Battesini, Vitral, Kaizen, Quaterna Réquiem, Som Nosso, Bacamarte, Terreno Baldio, Mobilis Stabilis, Veludo, Maestrick, Tempus Fugit, Lummen, entre outros, refletem algumas das proposições desse trabalho. "Busco destacar os nacionais pelo respeito que merecem fazendo música sem apoio em um país que cada vez mais precisará de arte para sensibilizar mentes intolerantes e alertar para o futuro. Nas pesquisas de church organ destaco os italianos 'Jacula' do álbum maldito 'Tardo Pede in Magiam Versus', de 1972, e 'Metamorfosi' com o álbum 'Inferno', de 1973, dois plays que os próprios fãs de prog tem extremo cuidado para falar sobre."

Quanto ao casting de músicos de diferentes gerações do rock progresssivo, Shimmi valia como preciosas as escolhas feitas por Moscatiello. "Tornou-se uma homenagem à história do rock progressivo brasileiro, que ainda pretendemos dar continuidade com outras produções", revela Shimmi.

Visando maior originalidade e aprendizado possível, Moscatiello optou por parceiros que não havia trabalhado e, por isso, pensou em e opções variadas para todos os instrumentos em cada música.

"Exceto na faixa final, 'O último ato', onde o Renato deu a idéia de convidar Willy Verdaguer, conhecido pelos clássicos trabalhos no Secos e Molhados e com seu super grupo Humahuaca, visando a criação do arranjo de cordas e gravação do contrabaixo. Apresentei a ele a idéia e foi uma experiência diferente porque não teve ensaios. Os músicos chegavam nas sessões de gravação com as partituras estudadas e o maestro regia e passava as coordenadas", diz o artista.

O músico ressalta que a idéia foi tentar transmitir de forma emotiva as questões abordadas no universo obscuro da HQ. "Trazendo elementos com teor dramático, épico, reflexivo e de tensão para ilustrar o imaginário na experiência audiovisual", diz.

Quanto ao futuro do Brazilian Progressive Rock Soundtrack, os produtores afirmam que objetivo é difundir ao máximo o álbum e HQ para o público segmentado que já seguem acompanhando os trabalhos e linhas conceituais. "Também queremos divulgar o trabalho no exterior, abrindo novos caminhos, dialogando e aproximando de novos cenários", avisa Moscatiello.

Para Shimmi, a expectativa é conseguir novas parcerias com músicos e produtores. "Aqueles que sabem que música tem o poder de comunicar ideais e de transformar seus ouvintes. Conseguir a Masquerecords como parceira, foi um salto para essa produção."

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

Sobre o Blog

O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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