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Combate Rock

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Depoimento: 'A difícil arte de lutar contra o triunfo da mediocridade'

Combate Rock

2003-05-20T19:06:33

03/05/2019 06h33

Marcelo Moreira

"A frase do professor universitário é boa: 'A duras penas conseguimos largar o autoritarismo, mas o autoritarismo custa a largar muitas pessoas'.

Contei isso para minha filha e ela está horrorizada. Não consegue acreditar que o filme está sendo repetido. Ela tem 22 anos e está se formando em arquitetura em uma universidade pública importante paulista e não imaginava que o conservadorismo radical e desprovido de bom senso tivesse avançado tanto.

Para ela, o nível do debate é rasteiro demais – isso quando há debate. Ainda é possível conter os danos nas faculdades de humanas e na economia, dá para equilibrar da falta de inteligência e de informação, mas no restante do campus é um horror.

As pessoas se recusam a conversar, a debater e a argumentar, dos dois lados do espectro, mas é muito, mas muito pior no lado da direita porque alguns extremistas de esquerda, em determinados momentos, até param para ouvir, pensar e refletir.

Esse pessoal neoconservador, da nova direita, sabe muito pouco, não são articulados, se recusam a se informar, são agressivos e tem como postura a intimidação e a ameaça. Nem mesmo os mais empedernidos stalinistas e trotskistas dos anos 70 e 80 ousaram ter essa atitude.

'Mãe, essa galera mistura tudo. Crítica vira ofensa, opinião divergente vira motivo para desqualificação, comportamento fora do padrão é uma ameaça. As pessoas me odeiam por causa do piercing no nariz e por causa das camisas do Slipknot e do Iron Maiden'

Bem-vinda ao mundo da democracia parcial e em risco, minha cara. As tropas de choque da atualidade criaram sua própria realidade. Vivem em sua própria dimensão e em seus mundos podres e assépticos.

Essa polarização não é novidade. A esquerda se fortaleceu abusando do 'nós contra eles' nos anos 80, quando isso fazia todo o sentido. O PT, o PSOL, PCdoB e o PSTU também foram por essa linha.

Por mais que o discurso extremo desses partidos reforçasse a necessidade dessa 'luta', só vi intimidação e ameaça, por incrível que pareça, quando eles brigavam entre si nas eleições dos centros acadêmicos ou de sindicatos. Nunca foi uma política da esquerda brasileira pregar a 'eliminação' da oposição ou 'intimidar' adversários.

O PT ficou 14 anos no poder e isso não aconteceu – tudo bem, os tempos são outros com as redes sociais, mas a diferença de postura e comportamento são distintos, marcantes e muito elucidativos.

Álbum fundamental da música brasileira, um símbolo da resistência e da contestação – festival Começo do Fim do Mundo, no Sesc Pompeia, em 1982

As tropas de choque do mundo virtual são muito mais virulentas e violentas, embora mantendo sempre o padrão de desinformação/falta de informação/intimidação.

Não era muito diferente de 35 anos atrás, quando as tropas de choque de então, mesmo em decadência, ainda estava cacifadas por status quo autoritário e igualmente violento. A diferença é que havia uma coesão maior do 'nosso lado' e tínhamos meios supostamente mais eficazes de nos defender.

Quando digo o 'nosso lado' era a galera que curtia rock e que abraçou o punk e a new wave dos anos 80. Adorava música e aprendi cedo a tocar violão (bem mal, por sinal), mas quebrava o galho com as revistinhas de cifras.

Eu fazia sucesso com as minhas amigas na escola pública e a coisa melhorou quando fiz o colegial em escola privada, ainda que de baixa renda, mas aí eu já tinha largado a MPB insossa da época para curtir a disco music (logo abandonada) e cair de cabeça no rock de David Bowie, Rolling Stones, Led Zeppelin e Raul Seixas. O comportamento mudou, e o meu conceiro de beleza também mudou.

Para nós era tudo muito rápido na época e o Led Zeppelin ficou chato. Era hora de berrar e cuspir ao som do punk, do Clash, dos Ramones, ainda que tardiamente. Eu era uma punk que começou a se vestir como punk e ouvir new wave.

O primeiro sinal foi dado pelo meu cordato pai, que se divertiu no começo, mas ficou bem puto depois com as minhas roupas punks. "Lembre-se sempre: quando você se veste de bruxa, não reclame depois quando os vampiros atacarem". Ele olhava furioso para o moicano de meu segundo namorado – eu tinha nem completado 17 anos.

Foi uma visão profética: nós dois e nossos amigos atraíamos toda sorte de infortúnio e tranqueiras, mas principalmente a polícia. Nunca foi presa, mas não foram as poucas vezes em que tomei tapas do nada, chutes de coturnos, para não falar do abuso sexual – mãos nos seios e na bunda.

O mais próximo que cheguei de ir para o juizado de menores foi ter experimentado cigarro pela primeira vez (odiei) e ter bebido algo doce na padaria perto da escola (Martini? Campari? 'bombeirinho'? Não lembro).

É claro que alguma 'filha da puta' me dedurou para a diretora da escola (foram duas e descobri quem foram mais tarde, mas a retaliação foi branda), que avisou logo a polícia.

Pelo que me contaram, pela velocidade com que chegaram , pareciam estar esperando. Sobrou para o dono da padaria. Meus pais foram chamados e sofri uma baita humilhação. Por conta do 'incidente', as regras de comportamento e vestuário, mesmo com uniforme, ficaram mais severas. O sistema tentou nos enquadrar. Sorte que recebi solidariedade da galera.

Só percebi muito tempo depois que o punk ficou muito violento e dei uma guinada para o gótico e para a new wave, por mais que frequentasse grupos de motoqueiros e metaleiros, que eram bem mais tranquilos. Mas a perseguição era a mesma: não importava se éramos punks, metaleiros ou góticos.

Era só pararmos para comprar água na rua Augusta, no centro de São Paulo, que do nada uma viatura aparecia. Alguns policiais queriam apenas se divertir e nos constranger, ou tomar um dinheiro (coitados, éramos duros) ou estavam irritados por conta do visual de 'baile de fantasia' que tínhamos.

Mas o que mais irritava, sempre, era o ambiente, o contexto, a porra do clima sufocante de estarmos sendo vigiados o tempo todo, e não pela polícia, mas pelo 'cidadão de bem'.

A vizinha que era amiga da minha mãe, o verdureiro que vendia de porta em porta, a professora do grupo escolar e depois a diretora da escola particular… Ainda era uma época em que as pessoas não precisavam ser dissimuladas.

A professora de história não perdia a oportunidade de chamar o meu grupo da classe e os semelhantes de outras classes de 'trupe das vagabundas'. Quando arrumei o meu primeiro emprego, ainda no terceiro colegial, para pagar a mensalidade da escola, foi até ela e mostrei e carteira de trabalho e o holerite. E falei que, se existisse uma imagem que personificasse uma pessoa imbecil, seria a dela. Claro que fui suspensa por três.

Meu pai era cordato, mas igualmente conservador. Para ele, artista e jogadores de futebol eram vagabundos, mas nunca se iludiu a respeito da vida que eu e meu irmão mais novo pudéssemos ter. O que o preocupava não era a rebeldia minha, o som que eu escutava ou minhas companhias: era a reação do sistema.

'Odeio comunista e bagunceiro, sindicalista e essas bostas, mas eu sei o que digo: se a ditadura me bateu e me deixou de molho, do nada, só porque alguém me confundiu com outra pessoa, imagine o que vão fazer com bocudos, comunistas e gente que eles não gostam?'

Meu pai entendeu logo cedo o lado pesado do autoritarismo e sabia que as chances de a maré me pegar eram grandes. 'A intolerância da ditadura iguala todo mundo na mediocridade. Na tentativa de homogeneizar e horizontalizar o comportamento da sociedade, não existe mais claro, escuro, cinza ou colorido. Só restam o medo e o oportunismo, os grandes trunfos do totalitarismo', filosofou o Fabão, guitarrista péssimo, grandão e meio gordo, fanático pelos Allman Brothers e pelo Clash. Formado em ciências sociais, dava aula por merrecas em cursinhos pré-vestibulares.

Mesmo migrando para o gótico, o patrulhamento por conta do meu comportamento não parou, inclusive na própria faculdade de comunicação. Ainda éramos uma geração que vivia os resquícios da ditadura e tinha dificuldades para lidar com a liberdade de expressão, ainda que parcial, recém-conquistada.

É surreal que uma camiseta do Iron Maiden ou de bandas de metal ainda incomodem 'universitários' que propensão ao fundamentalismo religioso ou ao radicalismo político (FOTO: REPRODUÇÃO)

Era enervante ouvir os comentários dos 'colegas' de classe sobre as prisões de roqueiros e músicos em geral por porte de drogas – os mesmos lixos que viviam caindo de bêbados nos botecos e que tratavam as mulheres como merda; as mesmas estúpidas que se comportavam como merda e que, bebaças, reforçavam esse comportamento sexista, misógino e extremamente preconceituoso.

Convivendo com uma galera de outras faculdades, percebia que o mundo não era esse charco em que eu estava inserida, que havia ambientes menos tóxicos, embora com os mesmos problemas.

Continuo ouvindo punk, new wave e até consigo ouvir grunge, e muito rock nacional. É desanimador ouvir 'Até Quando Esperar', da Plebe Rude, e qualquer música do Cólera e dos Inocentes e perceber que o mundo está voltando 40 anos e que os métodos totalitários de intimidação, ameaça, delação e constrangimento voltaram com força total, de forma explítica e desavergonhada.

O mundo que imaginei para minha filha era temperado por rock e respeito absoluto por direitos humanos, das minorias e liberdade de expressão. Jamais imaginaria que minha filha seria chamada de vagabunda em uma faculdade de ponta por usar piercing no nariz, cabelo descolorido e camiseta de metal.

Ok, isso aconteceu vindo de um grupelho de reacionários aparentemente ricos que votaram nos conservadores no ano passado. Ainda assim, é assustador que esse tipo de gente, jovem e supostamente com boa educação, esteja repetindo perigosamente o mesmo comportamento dos pais e dos avós.

Certamente, é o tipo de gente que provavelmente vai delatar minha filha por estar bebendo animadamente em um show de rock em um bar ou festa da faculdade. Vai denunciar minha filha como maconheira (ela não curte, mas já experimentou), rebelde, comunista, defensora de bandidos, de negros, de gays, de LGBTs e de mais um monte de coisa.

Meus amigos me dizem que, mesmo que as coisas pareçam semelhantes entre o final dos anos 70 e agora, não dá para comparar os dois momentos. Não só não estou convicta disso como prevejo dias muito difíceis.

O ambiente está claustrofóbico, pesado, sufocante diante das situações em que o presidente da República estimula alunos a delatar professores, interfere em peças publicitárias que retratam a diversidade, corta verba da educação e estimula ataques a artistas e à cultura. Isso para não falar em políticas e ações que visam a 'regulação' da vida pessoal das pessoas.

Todas essas coisas têm a chancela das urnas, em uma clara opção pela mediocridade e em constante confronto com o conhecimento e com o pensamento divergente. Nem nos mais delirantes sonhos totalitários a esquerda cogitou tal coisa. Não só estou pessimista: estou com bastante medo."

Cecília M, relações públicas e escritora (a pedido da entrevistada, preservamos sua identidade e informações que, de alguma forma, possam identificá-la).

 

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

Sobre o Blog

O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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