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Combate Rock

Combate Rock

Depoimento: uma vítima da 'escola sem partido', 40 anos atrás

Combate Rock

2002-05-20T19:06:32

02/05/2019 06h32

Marcelo Moreira

"Dava para perceber que o regime estava apodrecendo. A impressão que tínhamos era de que o mundo estava acabando, pobreza aumentando, muita gente sem dinheiro, tudo caro, e uma quantidade absurda de imóveis para vender na periferia de São Paulo e na Grande São Paulo. Havia um clima de desespero.

Era final de 1978 e parecia que a repressão à molecada de classe média tinha aumentado. Distensão? Afrouxamento? Não sei onde, mas na Vila dos Remédios e em Osasco os 'gorilas' estavam mais ariscos. Não podiam ver uma galera junta que chegavam pegando pesado e dando geral.

Moleques de 15 anos estavam fumando Chantecler e Carlton, cigarros ruins, mas a polícia dizia que era maconha. Como contestar? A quem recorrer?

Mas tinha gente mais antenada e percebia o que acontecia. A mudança poderia demorar um pouco, mas aquela ditadura ia acabar e os generais iriam para casa envergonhados e humilhados.

Era gente inteligente e bem informada. Eram nossos professores de estudos sociais e OSPB (Organização Social e Política Brasileira), gente que saiu da USP (Universidade de São Paulo) para jogar uma luz em nossas vidinhas rebeldes, mas em causas aparentes.

Tinha também um um maluco que andava de uniforme militar, que dava aula de física, que falava sozinho e pertencia á ordem, secreta Rosa Cruz, ou coisa parecida. Só que era filho de militar e odiava o Exército. E fumava maconha no recreio, mas ninguém mexia com ele. E ele adorava tocar corneta enquanto a galera tentava tirar Raul Seixas e Mutantes no violão.

Foram esses malucos que sacaneavam os babacas dos funcionários públicos de carreira no 'grupo escolar' estadual. Era gente nojenta, que adorava 'ordem e progresso' e se meter na vida dos outros. Adorava suspender os alunos por causa do cabelo comprido, da calça gasta, da camiseta surrada, do cigarro fedido e do beijo longo que a menina deu no menino da rua de baixo.

E foram esses professores malucos que nos apresentaram os primeiros aparelhos de fita cassete com músicas de outro mundo. Foram esses caras que disseram que a Tropicália era legal, que Mutantes tinham mensagens subliminares e que existiam sons barulhentos que eram capazes de matar a minha avó de susto – e de deixar a diretora fã dos boleros de Altemar Dutra enlouquecida.

E eis que um dia o zé mané do Turcão, o professor de estudos sociais, resolveu nos mostrar sons antigos de Alice Cooper. "Billion Dollar Babies", "School's Out", "Only Women Bleed", e aí veio aquela maluquice de "Animals", dso Pink Floyd, o disco que tinha inspiração na "Revolução dos Bichos", de George Orwell, livro que tínhamos lido no começo do ano.

Isso foi na sala de aula. No final do dia, perto das 13h, estava todo mundo no boteco do Sapo, a uns dez minutos a pé do colégio, para que Turcão nos mostrasse o livro "1984" e tocasse outra fita com músicas dos Stooges e MC5, coisa tosca e mal gravada. Acho que tinha umas 30 pessoas. E a Ritinha encheu tanto o saco que ficou com o Turcão no fim da tarde, que era casado, feito, alto e en curvado. E eu comecei a namorar ali com a Joana, moça legal que morava há dois minutos do bar.

Todo mundo bebeu muito e fumou muito cigarro – só o Turcão sabia o que era maconha. Mas todo mundo ficou sabendo o que era ditadura, o que era regime autoritário e como a arte era importante para combater a ingerência do Estado na vida dos cidadãos – coisa que a diretora e o bedel adoravam fazer.

O Black Sabbath era considerado uma banda 'perigosa' em alguns círculos da sociedade brasileira nos anos 70, em especial nas escolas públicas paulistas (FOTO:DIVULGAÇÃO)

Turcão cometeu dois erros fatais dois dias depois, quando deu aula para o primeiro colegial B da manhã: decidiu basear sua aula em músicas de Geraldo Vandré e Black Sabbath e colocou no mural um bilhete discreto que estava esperando a galera de novo no bar do Sapo até as 14h.

A turma garante que o bilhete não ficou mais do que 15 minutos exposto. Foi retirado rapidamente para que o boca a boca começasse. Só que a diretora ficou sabendo, provavelmente avisada pela turma da coral, como chamávamos a galera que fazia aulas de música e cantar o Hino da Independência.

Pelo menos uns dez desse grupo sabia o que rolava no bar do Sapo e em nossas aulas – "coincidentemente", era a mesma galera que fazia aulas de crisma no sábado à tarde e não perdia uma missa no domingo de manhã na paróquia de um padre muito amigo dos delegados de polícia da região.

Turcão e todos os professores da área de humanas sumiram em menos de uma semana. Foram transferidos para locais bem distantes de suas casas como 'punição', assim revelou o bedel semianalfabeto e capataz da diretora, com sorriso no rosto. Na semana seguinte, seria a vez do professor malucão de física ser afastado por 'doença'.

Os substitutos, mais velhos e pouco dispostos a trabalhar, custava a ensinar o básico, bem, de acordo com o que a diretora ranzinza e fascista queria.

No ano seguinte, para nossa surpresa, outros dois inspetores de aluno chegaram para aumentar a 'vigilância' nas aulas, na bebedeira, nas algazarras e nos 'namoros'. A diretora proibiu qualquer atividade extraclasse que envolvesse música ou teatro. Excursões? Só ao Museu do Ipiranga e ao quartel do Exército em Quitaúna, quase em Carapicuíba.

Eu me formei em engenharia mecânica na FEI, em São Bernardo, com muito custo e gastando muito dinheiro em mensalidades, e fiz questão de me tornar professor do ensino técnico na região de Osasco, nos Sesis da vida. Minha aula era concorrida, pois tinha dia que eu queria falar da vida e tocava um pouco de violão. A aula terminava na lanchonete em frente à escola, regada a cerveja e a cigarro fedido.

Por anos eu e alguns colegas tentamos achar o Turcão. O pessoal da Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo) teria localizado o cara no Mato Grosso do Sul, dono de banca de jornal e dando aula particular de qualquer coisa. Alguém disse que ele morreu dormindo em sua casa perto de Três Lagoas.

O malucão da física, segundo o Bolerão, o melhor jogador de futsal da nossa turma, teria sido internado pela família em uma clínica psiquiátrica, embora nunca confirmamos essa informação.

O Benê, professor de OSPB, entrou para o ramo editorial, primeiro revisando livros didáticos, depois escrevendo alguns deles, segundo a Ritinha, a que tentou namorar o Turcão – hoje é uma médica veterinária no interior do Estado.

A diretora fascista? Perambulou por Osasco e Vila dos Remédios após a aposentadoria, dez anos depois, desgostosa com o fim da ditadura. lentamente foi perdendo poder na escola até ser transferida para um cargo burocrático na Diretoria Regional de Ensino. Fascista e autoritária, era também papa-hóstia, e se tornou professora de catecismo até morrer bem velhinha.

Todos nós tocamos nossas vidas e tentamos aprender ao máximo aquilo que os professores amordaçados tentavam nos mostrar paralelamente. Tivemos sorte.

A maioria jamais teve o privilégio de beber com o Turcão no bar do Sapo e ouvir Iggy Pop esgoleando no gravador ridículo de fita cassete. Não teve a sorte de ouvir "War Pigs", canção antibelicista, e o discurso do Turcão a respeito da Guerra do Vietnã, das Guerra dos Seis Dias, da crise do petróleo, da renúncia de Richard Nixon, o presidente dos Estados Unidos.

Era um viés de esquerda? Claro, e não poderia ser diferente. Tinha de ser contestatório e tínhamos de entender o que rolava – até para que pudéssemos ser contra os 'comunistas', como muitos de nós se tornaram depois, para o bem e para o mal. Mas pelo menos tivemos a alternativa. Isso valeu ouro.

O Turcão foi denunciado há 40 anos por querer ensinar algo além da cartilha engessada e embolorada de gente que defendia o autoritarismo, a 'tradição', a 'família', a 'propriedade' e 'Deus'. Foi punido por mostrar que o mundo era bem mais perigoso do que supostamente achávamos que era. Foi detonando por nos ensinar a pensar, ou pelo menos a buscar algum tipo de informação alternativa. Foi vítima da 'escola sem partido', essa excrescência fascista e autoritária.

Alice Cooper Band no auge, em 1972. Depois do show insano em São Paulo, em 1974, banda e artista foram considerados subversivos por muita gente conservadora ligada à educação (FOTO: DIVULGAÇÃO)

A duras penas conseguimos largar o autoritarismo, mas o autoritarismo custa a largar muitas pessoas 40, 50 anos depois de vivermos o pior período de nossas vidas.

O Renê, moleque bom de canto e de escrita, que morreu cedo de câncer, entendeu tudo a respeito do paradeiro de um tio meio distante no começo dos anos 70. Ao lado do Cris, negro fanático pelo Santos e por samba, vivia tomando 'geral' da polícia quando estavam no ponto de ônibus em avenidas da Vila Leopoldina.

O Cris apanhou muito da polícia uma vez quando um soldado quebrou de maldade o violão Gianini caro dele, quando terminou de tocar em boteco no Rio Pequeno. Ousou reclamar e apanhou. O cabo que chutou sua cabeça também era negro.

Ninguém entendeu o porquê de não ter sido levado para a delegacia do bairro para mofar por uma noite. Todo mundo que tava no bar ficou inconformado por a ação policial, mas dois idiotas ficaram inconformados por outros motivos. Esperaram o Cris e a namoradinha sair do bar e os espancaram no ponto de ônibus, na alta madrugada, xingados de comunistas, maconheiros e bêbados. E nenhum dos dois bebia… O Cris continuou tocando, mas se formou professor de história para lecionar em Itapevi.

Nunca passei por isso, mas sei de muita gente que passou. Uma vergonha gigantesca. Desde muito cedo, alertado pela família a alguns amigos, procurei me precaver na rua e na vida, procurando não chamar a atenção e 'andar na linha'. Foi orientado a evitar certas 'companhias', certas roupas, certas conversas. Já era a reta final da ditatura, mas ainda era um Estado policial. Que legal para um adolescente/pré-adolescente…

No colegial, já roqueiro e amante do som de guitarras, tinha de me policiar quando frequentava as rodas de violão e de rock, principalmente depois da prisão dos estudantes na PUC, em 1978. O Estado policial interferiu na minha vontade ouvir rock. Só mesmo na vitrolinha. no meu quarto, ou no radinho de pilha, as emissoras AMs furrecas…

Pode parecer um pouco de alarmismo em apenas três meses de governo Jair Bolsonaro, mas estou farejando o perigo do retrocesso e de comportamentos autoritários voltando. Duvido que a ditadura, militar ou não, seja reimplantada, mas o ambiente está propício para que comportamentos violentos e autoritários sejam incentivados e estimulados.

Além disso, me preocupa demais essa época em que a ignorância está sendo romantizada e elogiada. Parece que as pessoas estão achando legal ser burras e desinformadas. Os ignorantes estão se sentindo confiantes e autorizados atacar e intimidar. E está surtindo efeito.

As pessoas que pensam e quem alguma formação/informação estão se retraindo, seja por medo ou por simples cansaço. 'Não vale a pena, não perder meu tempo com gente imbecil'. E com isso os imbecis avançam. Primeiro são os ataques à cultura, depois à educação. Essa gente ignorante tem medo da gente, acho que o complexo de inferioridade tá pegando forte.

Tenho muita sorte de dar aula para alunos conscientes, de várias tribos, extratos sociais e origens econômicas. Tem bastante gente que odeia o PT e as esquerdas, mas souberam escutar o que os colegas têm a dizer e, mais do que isso, foram se informar e acharam interessantes as sugestões que receberam. Até quando eu poderei ver isso no atual contexto?"

Marcelo S. é engenheiro e professor universitário e de ensino técnico (a pedido do entrevistado, preservamos sua identidade e informações que, de alguma forma, possam identificá-lo).

 

 

 

 

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

Sobre o Blog

O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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