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Combate Rock

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O rock contra o pensamento único e a indigência intelectual

Combate Rock

2001-05-20T19:12:00

01/05/2019 12h00

Marcelo Moreira

Na esteira do desagradável caso da desistência da banda Dead Kennedys de não tocar no Brasil, o nome do baixista e cantor Roger Waters retornou às discussões de maneira completamente absurda e equivocada.

Detratores de artistas e de empreendedores da área cultural mais uma vez celebram o que chamam de "vitória" no âmbito roqueiro. "Músico tem de se limitar a tocar música e ficar quieto", dizem alguns arautos desse apocalipse intelectual que nada mais revela do que completa indigência mental.

Mesmo jornalistas outrora sensatos passaram a advogar tal premissa, em uma tentativa de enjaular os espetáculos culturais em uma linha de pensamento único, insípido, inodoro, incolor, estéril e vazio.

Alguns chegaram a lamentar o cancelamento dos Dead Kennedys por causa da polêmica com o cartaz contestatório do show, mas de uma forma surpreendente: culpando o artista que produziu o cartaz e os fãs que entusiasmaram com o suposto viés de protesto dos músicos norte-americanos.

"Diante tamanha celeuma, estão satisfeitos com esse cancelamento?", perguntou sarcasticamente um repórter da área de economia em veículo importante fanático por hardcore.

Outro fã da banda (????), publicitário bem-sucedido, filosofou: "Se for para fazer demagogia como Roger Waters, é melhor que não venham mesmo. Não farão falta."

A saída mais fácil para discutir essa questão é apelar para a falta de informação de quem despeja esse tipo de conceito deturpado.

Seguindo uma cartilha perigosa em total desacordo com a filosofia das artes, da cultura e da liberdade de expressão, essa galera prega uma certa uniformização de discurso em que a base é a total isenção e a marginalização de temas polêmicos e "insatisfatórios", na linha do veto presidencial à propaganda do Banco do Brasil, por exemplo.

Em shows de rock, portanto, nada de bradar contra o fascismo, como fazem Roger Waters, Ratos de Porão, Cólera, U2 e muitos outros. Nada de discursos contra a fome na África, contra o terrorismo ou em defesa dos direitos humanos e meio ambiente, como Bono, do U2, adora fazer.

De acordo com essa premissa, defendida por essa gente, vamos banir "Alagados", dos Paralamas do Sucesso", e "Polícia", dos Titãs, em prol de canções bacanas, mas inofensivas, que falem de amor, traição, corações partidos, exatamente como ocorre no ambiente esterilizado e pasteurizado da música sertaneja. É a turma que sempre vai preferir "She Loves You" à "horrorosa" e "contestatória" Revolution, dos Beatles.

De onde foi que essa gente tirou a ideia de que o rock/arte/cultura é mero entretenimento? Pode até ser isso, mas não só isso – nem deve ser apenas isso.

Se até as novelas e minisséries da TV Globo – suprema heresia – carregam faz tempo nas tintas políticas e de crítica social, então como justificar essa "exigência" de marginalizar a política nos espetáculos de qualquer espécie? Só porque a esmagadora maioria dos protestos e das críticas políticas têm viés de esquerda?

Cadê os boquirrotos da direita e apoiadores do presidente Jair Bolsonaro para fazer a defesa dessas ideias nos palcos? Cadê a coragem que sobra nas redes sociais? Será que esses artistas temem uma reação ainda mais virulenta se fizerem algum tipo de elogio ao bolsonarismo e ao conservadorismo que assola o país?

Qual o medo, já que esse pessoal votou em massa no candidato vitorioso? Por que bradar contra o discurso antifascista e esquerdista? É o medo de perder a narrativa diante do encolhimento e acanhamento dos artistas deste espectro político? Ou será o medo de ficar sem argumento no duelo de ideias?

Seria mais fácil evitar que Roger Waters e Dead Kennedys, pelo que representam (ou representavam, no caso dos últimos), para não correr o risco de passar vergonha nos debates, certo?

Será que Lobão conseguiria ir além do "Dilma, vá tomar no c…", como entoou em 2015 em um teatro meio vazio em São Paulo?

Será que Roger Rocha Moreira retiraria o Ultraje a Rigor do confinamento do estúdio de TV do SBT e teria disposição de encarar uma plateia hostil quando defendesse a ditadura militar, oficiais acusados de praticar tortura e o governo inacreditável de Jair Bolsonaro?

A saída mais fácil para os que perdem os argumentos é desqualificar o artista ou emissor da ideia pelo simples de defender as políticas ou posturas identificadas com a esquerda.

Pior ainda é ver artista assentindo para a disseminação de "justificativas" baseadas em premissas "religiosas" para reinvindicar o silêncio e até a censura de quem se posiciona a favor de ideias progressistas e que geralmente tem cunho esquerdista.

E nem vou entrar aqui na caça às bruxas empreendida desde a campanha eleitoral, com ameaças e intimidações que partiram e ainda partem do campo conservador de cortes de orçamento e boicotes claros a artistas que não se "adequem" à nova linha ou que insistam em fazer críticas aos governos conservadores – tanto que isso já afeta o mercado cultural, onde promotores de shows e espetáculos começam a deixar de lado artistas considerados "polêmicos".

Um dos momentos mais importantes do show de Roger Waters (FOTO: REPRODUÇÃO/YOUTUBE)

E é duro constatar que essa gente que abomina qualquer tipo de discurso de artistas que defendam ideias ditas progressistas também fica horrorizada quando professores de qualquer grau mostram independência e inteligência.

E é muito mais lamentável que, entre essa turma que defende o lixo da "escola sem partido", estejam jornalistas, publicitários, artistas e até professores, gente que deveria ser mais inteligente e esclarecida por supostamente ter acesso a informações.

A coisa piora, e muito, quando o melhor argumento vem acompanhado das palavras e expressões indefectíveis – "defender a moral, o bom gosto e a família", entre outras pérolas do moralismo abjeto, discricionário e funesto.

Não dá para respeitar gente que incentiva e estimula a censura e ataques às liberdades de expressão, opinião e de imprensa só porque as opiniões contrárias as desagradam – isso quando se dão ao trabalho de tentar entender essas ideias.

É mais fácil aplaudir a política de intimidação e de apoio à "censura", já que dá menos trabalho, caso contrário obrigaria essa gente a ler, estudar e se preparar minimamente para o debate.

E não tem como não voltar a Roger Waters, em alusão ao primeiro show dele em São Paulo no ano passado, quando houve as críticas mais contundentes ao então candidato Jair Bolsonaro.

Não consigo não gargalhar ao lembrar da "live" no Facebook, dentro do estádio, de um empresário do setor musical que sempre se disse apaixonado por Pink Floyd, vomitando sua indignação contra o músico por conta do teor político da apresentação e até das músicas. O cara ouviu Pink Floyd por 40 anos e nunca entendeu nada, coroando com o seu "boicote pessoal" ao músico – e com o descarte de seus CDs da banda e de Waters.

Como foi possível que tenhamos regredido dessa maneira? Como é possível que eleitor brasileiro tenha eleito um presidente e um pensamento político que odeia o conhecimento, as artes, a cultura e a educação?

O encerramento deste texto tem de louvar declarações fortes e contundentes de João Gordo, vocalista dos Ratos de Porão, neste mês de abril, falando sobre a imensa contradição de roqueiros tidos como radicais – e até extremistas em relação ao som que escutam – de votar em políticos e correntes de pensamento que são frontalmente contra o estilo de vida dos artistas e fãs de música.

Mais do que uma provocação do Combate Rock, a menção a João Gordo é uma maneira de explicitar o que está ocorrendo atualmente e de estimular uma reflexão. Ele centra fogo nos fãs de metal, mas isso vale para qualquer fã de rock que entende o valor da liberdade de expressão.

Em entrevista ao programa Interdependente, veiculado pela Frei Caneca FM, de Recife (PE), ele afirmou que "os metaleiros" , entre outros, irão se arrepender por terem apoiado políticos conservadores.

"Não troco ideia com fascista, é paulada. Esses metaleiros fascistas vão tudo se arrepender. Como esses caras dizem ser satanistas, escutam black metal, falam que são fãs do capeta e tal, mas apoiam cristão fundamentalista? Os caras são loucos, velho?"

O cantor não aliviou em seguida: "A coisa mais fácil de acontecer é aparecer um monte de político que é pastor evangélico ou fundamentalista cristão para proibir banda de black metal, de death metal, de tocar aqui, cara. Porque falam do capeta, tá ligado? É muito ridículo isso tudo, cara. Antigamente, o metal era contra tudo isso. Agora tá do lado desses caras? Acho isso uma merda e sempre digo: com fascista não tem ideia, cara. Os caras não entendem, são burros, tapados. Acreditam em mentiras e são racistas. São tudo que não presta, então não tem ideia."

 

 

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

Sobre o Blog

O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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