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Combate Rock

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Amorphis: metal moderno, mas com os pés firmes na tradição

Combate Rock

2004-04-20T19:07:00

04/04/2019 07h00

Marcelo Moreira

Os finlandeses do Amorphis estão entre os artistas de metal mais corajosos que existem. De uma banda de música extrema no começo da carreira, o sexteto passou por vários caminhos, experimentando o heavy tradicional, o metal progressivo e até mesmo o hard rock.

Pedradas? Foram muitas em quase 30 anos de carreira, mas uma coisa de que a banda se orgulha é de manter a integridade em momentos de turbulência e um forte senso de  dever cumprido, ainda que seja necessário continuar batalhando, em grande estilo.

Ao lado de Nightwish, Stratovarius e Sonata Arctica, o Amorphis faz parte de um grupo de bandas clássicas do metal finlandês. E é esse lado clássico que o sexteto deve enfatizar no show que fará em São Paulo no dia 14 de abril, no Espaço 555, ao lado da Galeria do Rock.

Em entrevista por e-mail, o guitarrista e fundador do grupo, Tomi Koivusaari, fala, entre outras coisa, sobre como encara os 30 anos de carreira do grupo e como as mudanças no mercado fonográfico forçaram uma visão da trajetória do Amorphis:

Amorphis (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Combate Rock – O álbum "Tuonela" completa 20 anos do seu lançamento. Quão importante é o álbum para Amorphis? Foi um divisor de águas para a carreira da banda?

Tomi Koivusaari: É difícil dizer o quanto é importante, acho que todos são muito importantes à sua maneira. Quando Tuonela saiu, alguns de nossos fãs ficaram um pouco chocados, eu acho, já que era tão diferente comparando com o seu antecessor, "Elegy", que era mais orientado para o rock e tinha mais elementos "psicodélicos". Mas eu acho, que para nós, foi importante. Como nós corremos esse risco para tentar coisas diferentes mais, era apenas algo que precisávamos para tentar manter as coisas frescas e interessantes para nós mesmos em primeiro lugar. Eu ainda gosto muito desse álbum, ele tem uma sensação agradável de humor, embora seja difícil escolher qualquer música dele hoje em dia para o nosso set ao vivo.

Os brasileiros podem esperar algo deste álbum nos shows?

TK: Infelizmente não desta vez, eu acho. Nós teremos nosso 30º aniversário da banda em breve, então vamos ver o que podemos fazer naquele ano. A próxima turnê é baseada no novo álbum, "Queen of Time", mas é claro que tocaremos algumas  daquele álbum.

"Queen of Time", o mais recente trabalho da banda, foi considerado pelos jornalistas europeus como o melhor trabalho da banda em muitos anos. Esse tipo de informação é importante para você?

TK: Bem, claro. Ainda estamos nos concentrando e ainda estamos tentando fazer nosso melhor álbum toda vez que vamos para o estúdio. É muito importante para nós fazer melhores e melhores álbuns, contanto que continuemos fazendo isso. Nós não queremos nos concentrar em material antigo e fazer algumas turnês nostálgicas. Então, sim, e ainda mais importante é a reação dos nossos fãs ao nosso mais recente álbum, que tem sido excelente.

O público brasileiro tende a receber entusiasticamente bandas da Finlândia, com mudanças de formação ou direção musical, como nos casos do Nightwish e Sonata Arctica. As mudanças de som de Amorphis desde o início até a virada dos anos 2000 foram bem recebidas aqui. Você ainda tem que lidar com críticas ou reivindicações para retornar ao som de um passado distante?

TK: Não tanto assim. É claro que ouvimos algumas vezes alguns comentários como se fôssemos fazer um álbum como "Privilege of Evil", mas … nós tínhamos 17-18 anos na época, então é muito natural que a banda esteja progredindo em alguma direção, pelo menos é isso que pensamos como músicos. Nós ainda estamos muito orgulhosos desses álbuns antigos, mas é impossível fazer isso de novo, já que não estamos pensando de qualquer maneira que tipo de coisas faremos a seguir, é mais uma coisa intuição.

Numa recente conversa conosco, o cantor e compositor Jules Näveri, da banda Profane Omen, afirmou que o cotidiano finlandês tem uma influência fundamental, positiva ou negativa, na criação artística dos artistas. Ele mora no Brasil e acredita que dificilmente poderia viver novamente em Helsinque ou Lahti. Outro músico finlandês que vive no Brasil, Timo Kaakoski, guitarrista do Armored Dawn, disse algo assim recentemente. Como a vida finlandesa afeta a produção musical de Amorphis?

TK: Eu amo a natureza finlandesa e o silêncio no campo, lagos e florestas. Eu acho que essa é uma das nossas maiores influências. É difícil pensar como seria viver em outro lugar, apesar de estarmos gastando cerca de metade do ano sempre em algum outro lugar quando estivermos em turnê. Então eu realmente não posso dizer … Os invernos aqui são tão longos e escuros que dá muito tempo para brincar com diferentes tipos de ideias musicais e assim por diante, pelo menos. Se eu morasse em algum lugar ensolarado e quente, haveria muita tentação de ir à praia e pular os dias chatos do estúdio (risos).

Alguns temas históricos dominaram o trabalho de Amorphis. No entanto, o mundo louco em que vivemos é cada vez mais bizarro, com muita informação a ser processada e, ao mesmo tempo, comportamentos políticos e sociais que imaginávamos estarem enterrados. Como a Amorphis escolhe os temas a serem abordados quase 30 anos após a criação da banda?

TK: Nossos temas ainda são muito atemporais. Acho que as coisas básicas das pessoas não mudaram muito, afinal, até o mundo está ficando cada vez mais confuso. Nós não temos política em nossas letras e não somos uma banda política. Nossas músicas e letras são baseadas em assuntos muito primitivos.

Mudanças na indústria da música nos últimos 20 anos transformaram a forma como ouvimos música. Com a proliferação de downloads ilegais e recursos de streaming, as pessoas não valorizam mais a música, acreditando que tudo era gratuito. Como o Amorphis lida com essa situação neste século 21?

TK: Bem, não há realmente nada que possamos fazer sobre isso. Nós apenas temos que aceitar como as coisas estão hoje na indústria da música e da perspectiva do artista. Para nós, isso significa mais turnês, já que temos que nos sustentar de alguma forma. Ainda temos sorte de ter orçamento decente em estúdio, mas esse não é o caso de bandas menores. A certa altura, a qualidade começa a enfraquecer se as bandas tiverem que tornar as coisas baratas demais, receio. Então, nós temos mais turnês, e esperamos ter audiência suficiente nos shows, e também merchandise é uma maneira de manter essa coisa e as turnês rolando.

Amorphis é uma banda de álbuns em uma época que muitos artistas decidem deixar para o lançamento de singles e EPs. A Amorphis pretende mudar a maneira de produzir e lançar sua música?

TK: Não, eu ainda quero ouvir músicas novas como álbuns inteiros, e é assim que o Amorphis está fazendo música também. Seria estranho tentar fazer todas as músicas como singles de rádio, é importante que também haja algumas coisas experimentais, e isso é possível quando se pensa que a música é baseada em álbuns. Além disso, quando estamos pensando na ordem das músicas do álbum, ainda pensamos como é o LP, tendo lados A e B e criando a jornada musical por lá. Liberar apenas singles é um passo para fazer músicas sem muito conteúdo, na minha opinião. Então eu acho que nós vamos ficar na velha escola para sempre nesse assunto.

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

Sobre o Blog

O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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