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'Talk Is Cheap': CD de Keith Richards que salvou os Stones ganha reedição

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2001-04-20T19:07:00

01/04/2019 07h00

Marcelo Moreira

O disco que salvou os Rolling Stones. É desta forma que muitos críticos musicais e fãs da banda qualificam "Talk Is Cheap", a estreia solo do guitarrista Keith Richards, lançado há 31 anos e que agora ganha uma reedição de luxo, remasterizada e em eCD duplo.

O projeto era para ter sido lançado no ano passado, época do trigésimo aniversário do lançamento, mas atrasos nos trabalhos empurraram para este mês de março a chegada às lojas.

Uma grande surpresa para o mercado na época, "Talk Is Cheap" é recheado de canções muito bacanas, que transpiram ironia, sarcasmo e um pouco de ressentimento, tudo isso transformado em ótimo rock'n'roll.

Foi um tapa na cara do companheiro Mick Jagger, que insistia na carreira solo, mas capengava na promoção do insosso álbum "Primitive Cool", de 1987, recebido de forma morna por jornalistas e fãs, fazendo com que tivesse desempenho abaixo do esperado nas paradas.

Os Rolling Stones estavam à beira do fim na época por conta de problemas administrativos e uma série de desentendimentos sérios entre Jagger e Richards.

Quando os Stones assinaram um contrato milionário com a Virgin Records em 1983, Jagger, sem avisar os companheiros de banda, assinou um contrato paralelo para uma carreira solo. Quando descobriu, Richards ficou irado e pensou seriamente em romper com o parceiro no meio das gravações do fraco álbum "Undercover", lançado naquele mesmo ano.

Os atritos por conta dos contratos e nas gravações de "Undercover" abortaram a eventual turnê de promoção do disco. Apesar da oposição do companheiro, Jagger seguiu com a intenção de estabelecer uma carreira solo

Queria ser reconhecido como um artista do mesmo calibre de David Bowie, Rod Stewart e outros que tinham conseguido imenso sucesso sem a necessidade de um conjunto que o obrigasse a dividir as atenções. "She's the Boss", sua estreia solo em  1985, foi um começo auspicioso, com sucesso moderado, mas insuficiente para satisfazer a voz dos Stones.

Jagger estava firmemente convicto de que teria o sucesso maior que o da sua banda se insistisse na carreira solo, mas o contrato com a Virgin obrigou a banda a entrar em estúdio novamente para gravar no disco, que viria a ser "Dirty Works", de 1986, um trabalho com pouca inspiração e que refletia o clima pesado e pouco amigável dentro do grupo.

"Eu não preciso de carreira solo", disse Richards em uma entrevista à revista Rolling Stone durante as gravações do álbum. "Não faz sentido eu lançar um álbum solo. Seriam músicas dos Rolling Stones com outro cantor."

Richards, Jagger e os empresários do grupo, depois de muita discussão, já tinham concordado em programar uma turnê norte-americana para o o final de 1986 e uma europeia, no ano seguinte. De uma hora para outra, no entanto, o vocalista mudou de ideia e não quis sair em turnê, o que enfureceu o guitarrista, que ameaçou sair da banda.

Fazendo valer a sua vontade, Jagger se recusou a fazer a turnê e começou a trabalhar no segundo álbum solo, "Primitive Cool", que renderia depois uma turnê mundial entre 1987 e 1988.

Convencido a não romper com a banda, Richards decide tirar um ano de férias e tocar de vez em quando com amigos em Los Angeles. Foi quando conheceu o multi-instrumentista Steve Jordan, um músico talentoso que também era produtor. Nasceu uma forte amizade. "Se não fosse por ele [Jordan], não haveria álbum solo", disse o guitarrista à época à mesma Rolling Stone.

O jovem músico negro convenceu Richards a fazer um álbum despojado e descontraído, afirmando a necessidade de o stone se comunicar de uma forma diferente que não sob o signo da banda gigante.

Tocando bateria e comandando a produção, Jordan reuniu um senhor time de músicos de estúdio, que vieram a ser a base da X-Pensive Winos, a banda de apoio de Richards nas turnês dos anos seguintes.

"Talk Is Cheap" é um álbum muito agradável do começo ao fim. É rock'n'roll puro, embriagado, esfumaçado, sujo, como se estivesse sendo executado em um botequim de esquina.

É o trabalho que registra os melhores vocais já feitos por Richards, além do magistral trabalho de guitarras. Claro, tudo remete a Rolling Stones, mas com uma pegada mais descontraída, mais ampla e sme excessos de produção, como os registrados em "Dirty Works".

O grande hit é "Take It So Hard", música com  refrão marcante e ótimo solo de guitarra. "Big Enough" abre o álbum e é um blues sujo, obscuro, sacana, onde o vocal se sobressai. "Struggle" tem um groove contagiante, enquanto que as baladas "Make No Mistake" e "Locked Away" mostram Richards como o compositor talentoso que sempre foi, mas surpreendendo pela delicadeza e sutileza.

O CD extra da reedição é curto, são apenas seis faixas com sobras de estúdio. E que sobras. São boas canções que certamente não fariam feio se fossem lançadas originalmente, como é caso de "Big Town Playboy" e "Brute Force".

E por que esse disco salvou os Stones? Porque fez Jagger e todo entorno dos Stones perceberem que o guitarrista era a alma da banda e que a qualidade de "Talk Is Cheap", bem superior aos dois álbuns solo do vocalista, explicitava o que todo mundo sempre soube: eles até podem fazer álbuns solo para brincar de vez em quando, mas, juntos, tornam os Stones a melhor banda de rock do mundo, como sempre foi.

E Jagger deu braço a torcer, aceitando o inevitável. O disco saiu em outubro de 1988 e a turnê subsequente foi um sucesso. Mal esperou acabar o giro do companheiro e Jagger o convocou para uma reunião com a banda. Richards enrolou, recusou o convite da primeira vez e "valorizou o passe".

Mas não tinha jeito e era inevitável: os Rolling Stones teriam de entrar rápido em estúdio para finalmente voltarem aos palcos depois de sete anos. Entretanto, Richards voltou fortalecido e colocou alguns termos para que a parceria continuasse. Relutante, Jagger aceitou quase tudo e as brigas ficaram no passado.

E então "Steel Wheels" foi gravado muito rapidamente para ser lançado em meados de 1989, seguido daquela que seria, até então, a maior turnê de rock de todos os tempos, a mais lucrativa e a que mais tinha arrecadado – foi desmembrada em duas partes, "Steel Wheels", nos Estados Unidos, e "Urban Jungle Tour", na Europa, no ano seguinte.

Richards tomaria gosto pela carreira solo e voltaria ao estúdio sem a banda, mas de novo com Steve Jordan, em 1992, para cometer "Main Offender", um trabalho muito bom (a música "Eileen" é uma pérola da música pop), mas sem o mesmo entusiasmo e brilho do trabalho solo anterior.

Richards, sem intenção e ressentido, resgatou os Rolling Stones, ironicamente, ao gravar o seu primeiro ótimo álbum solo.

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

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O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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