Topo
Combate Rock

Combate Rock

Um necessário 'drible' à contaminação das obras por seus próprios autores

Combate Rock

2015-02-20T19:06:53

15/02/2019 06h53

Marcelo Moreira 

O comportamento do autor contamina mais a obra do que o contrário? Seria possível julgar uma obra ou um produto cultural por conta de supostos desvios ético-comportamentais do autor? Ou estaríamos falando simplesmente de incitação a um boicote, por mais que a obra tenha méritos?

Há décadas tais questões são discutidas em botecos, pubs, universidades e convescotes filosóficos. Há quem defenda o banimento de obras de autores como o pensador alemão Martin Heidegger, que teria manifestado simpatias pelo nazismo. O mesmo destino foi defendido por muita gente inteligente em relação ao conterrâneo compositor Richard Wagner, que viveu no século XIX mas teve muitas de suas músicas e sinfonias associadas ao nazismo.

O nazismo também foi o responsável por críticas duríssimas ao cantor Phil Anselmo (ex-Pantera), que recentemente tocou no Brasil. Anos atrás ele fez a saudação nazista durante um show em um bar repleto de pessoas adeptas do chamado supremacismo branco. Seu passado com o excelente Pantera deve ser banido por conta disso/

A discussão é pertinente porque continua o massacre nas redes sociais e até mesmo em alguns círculos acadêmicos contra o filme que conta a história do Ultraje a Rigor, que segue tendo fraca bilheteria – fato comemorado por quem abomina o comportamento pouco educado e desinformado do cantor e guitarrista Roger Moreira, o dono da banda.

Mauricio Gaia, integrante da equipe Combate Rock, explicou os motivos do porquê da necessidade de se ver o documentário com outros olhos. Deve ser assistido como um obra cinematográfica, um filme, independente das posições e das bobagens proferidas por seus personagens. Confundir o comportamento de seus personagens com a qualidade da obra é um equívoco que embaça e atrapalha o julgamento.

Para muitos, era inevitável que o documentário de Marc Dourdain sobre o Ultraje a Rigor seria contaminado pelo comportamento de Roger no dia a dia.

Polêmico, irascível, debochado, desbocado, agressivo e profundamente sem educação, o músico demonstra pouco apreço pelo debate, adora partir para a desqualificação estapafúrdia de oponentes e demonstra, na mesma medida, rancor, ressentimento e falta de informação – chegando ao cúmulo de justificar o assassinato do então deputado federal Rubens Paiva, em 1970, pela ditadura militar. "Morreu porque fez coisa errada", disse em uma rede social ano atrás. Paiva, assassinado em 1970, era pai do escritor e jornalista Marcelo Rubens Paiva.

Transferir o ranço e o ódio político em relação ao músico para o documentário do qual ele é apenas um dos personagens não só é injusto como uma falta de apreço à própria arte. Seria o mesmo que torpedear qualquer biografia de Adolf Hitler simplesmente por se tratar de Hitler. É desperdiçar oportunidades de ter acesso a um conteúdo de eventual qualidade.

A contaminação da obra pelos escorregões do autor ocorreu também com Lobão em relação ao seu mais recente álbum autoral, "O Rigor e a Misericórdia", de 2016, que passou quase despercebido.

Apontado como um dos artistas que defenderam o "golpe" contra a presidente Dilma Rousseff – ele chegou a mandá-la tomar no c… durante um show -, sofreu ataques pesados e um certo patrulhamento por conta de seu posicionamento político -e e também pelas inúmeras bobagens que disparou nas rede sociais e entrevistas.

O CD acabou sofrendo por conta do contexto político e acabou escondido, com divulgação discreta – teve mais repercussão por conta do famoso "não ouvi e não gostei".

"O Rigor e a Misericórdia" é um álbum bom, certamente o melhor dos últimos 20 anos gravado pelo artista, com músicas certeiras e urgentes. Resgata o que de melhor Lobão sabe fazer desde os anos 80: criar melodias pop de boa qualidade e letras melancólicas e poéticas de cunho existencialista.

É bastante provável que Lobão, Roger e mais alguns artistas da mesma estirpe polêmica sejam os próprios culpados pela contaminação de suas obras pelas atividades que mantêm fora da música.

Ainda assim, é prudente e louvável que possamos driblar essa contaminação para observarmos algumas obras. Em alguns casos, as suspresas serão agradáveis.

 

 

 

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

Sobre o Blog

O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
Contato: contato@combaterock.com.br