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Combate Rock

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A música autoral ganha fôlego com duas novas iniciativas em São Paulo

Combate Rock

2014-02-20T19:06:55

14/02/2019 06h55

Marcelo Moreira

O momento é de incertezas nos mercados de cultura e entretenimento, e as dificuldades ainda são muitas para quem pretende por trabalhos autorais na música no Brasil, mas ainda há empreendimentos que apostam em uma valorização da música inédita em vários gêneros que se tornaram underground.

As boas notícias é que duas iniciativas recentes pretendem valorizar este tipo de trabalho. Um dos estúdios mais tradicionais de São Paulo, o Curumim reativa seu selo fonográfico-musical para comemorar 30 anos de muita história.

O Curumim Records ressurge agora sob a direção de três caras que entendem muito de música e mercado underground: Pepe Bueno (das bandas Tomada e Pepe Bueno & Os Estranhos), Fernando Ceah (vocalista e guitarrista da banda Vento Motivo) e Chico Marques (das bandas 8080, Flying Chair).

São profissionais que tocam há mais de 20 anos pelo Brasil e que sempre brigaram pelo rock nacional. Não foram as poucas vezes em que Bueno se embrenhou em iniciativas para fomentar a música nacional e criar condições para que mais e mais bandas surjam e tenham oportunidades, com crise ou sem crise.

"Muita gente encara a música como competição, como um ambiente em que é necessário vencer e estar sempre à frente. Até pode ser, mas encaro também a questão de outra forma: arte é um estado de espírito. Trabalha-se com ela, vive-se dela e com ela, mas não vejo como ganhar dela ou com ela. Fazer música e criar canções são prazeres que superam qualquer competitividade", afirmou Bueno certa vez em uma das inúmeras conversas que teve com o Combate Rock.

Fernando Ceah é outro incansável batalhador  em uma cena que despencou neste século XXI. Mesmo com a velocidade absurda com que houve a depauperação do mercado musical, em especial no rock nacional, o músico nunca arredou pé, seja tocando sozinho ou em banda nos bares, seja trabalhando com comunicação e artes visuais.

Vento Motivo – Fernando Ceah é o primeiro da esq. para a dir. (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Em alguns anos de contato com o cantor e guitarrista, nunca escutei um lamento ou resmungo de sua boca. "Estamos nessa, então temos de fazer dar certo. Acredito no meu trabalho e na minha música. Já estivemos melhores, mas também estivemos muito piores, então vamos nos adaptando e continuando a criar", afirmou certa vez antes de um show do Golpe de Estado, no bairro da Barra Funda. Não se trata de um otimismo incorrigível, mas uma certeza de alguém que conhece bem o mercado e algumas de suas possibilidades.

A gravadora estreia com o relançamento, já disponível nas plataformas digitais, de toda a discografia clássica do fundador dos Titãs, Ciro Pessoa, com os álbuns "No Meio Da Chuva Eu Grito Help", "Em Dia Com A Rebeldia", o até então inédito "Batuque Aqui", além do clássico e raro álbum "Fósforos de Oxford", da lendária banda Cabine C, que Ciro formou logo depois de deixar os Titãs, por volta de 1984.

Outra atração é o grupo Vento Motivo, de Ceah, que lança em 22 de fevereiro single duplo "Ciclorama"/"Entre a Serpente e a Estrela". As faixas são parte do novo álbum da banda, Obras Cruéis, previsto para o final de abril.

Enquanto a banda Tomada descansa, o inquieto Pepe Bueno resgata o combo Pepe Bueno & Os Estranhos, com o single "Não Muda Mais (Você É Uma Maluca), o primeiro do novo álbum.

Há também um destaque internacional: "Al Ataque" e "Metalrock", da cultuada banda uruguaia Acido, que serão lançados em março.

No dial das rádios FM de São Paulo, a boa nova é que finalmente teremos um espaço para bandas autorais e novas. "Autoral Brasil Kiss FM" surge para congregar as novidades que aparecem no rock brasileiro e que ficavam dispersos na programação da emissora em três programas – "Bem Que Se Kiss", de Bruno Sutter e Marcelo Andreassa, "Fihos da Pátria", do Clemente Nascimento e Andreassa – os dois no horário do meio-dia durante a semana – e "BR 102", nos finais de semana, todos misturando bandas clássicas com desconhecidas.

Fazia tempo que era necessário que um programa como esse, específico, surgisse misturando jornalismo e música inédita. A 89 FM costuma dar bastante espaço aos novos artistas, mas de forma diluída em sua programação.

Nas primeiras edições o "Autoral Brasil" deu conta do recado, embora necessitando de um equilíbrio maior entre o grande volume de informações que os apresentadores querem passar e a execução das músicas.

Banda Tomada: Pepe Bueno é músico no centro (FOTO: MARCELO MOREIRA)

Faz sentido levar para a FM algo que é segmentado e tem dado muito certo nas web rádios – como é o caso do programa de web rádio Combate Rock?

Eu acredito que faz, em razão de ser um veículo importante como disseminação de cultura e informação. O rádio está presente nos celulares, nos carros e nos computadores e consome menos dados do que determinados aplicativos.

Ok, são visões distintas de como divulgar as bandas autorais, mas creio que são iniciativas complementares, e a Kiss FM é exemplo nisso, com o programa "Backstage", de Vitão Bonesso, há 31 anos no ar, com versões na rádio FM e na internet.

O programa sempre contará com a presença de um profissional da cadeia produtiva da música, uma banda ou um artista de rock independente e, vez ou outra, a participação de artistas ou bandas já consagradas e conhecidas pelo grande público. O comando é de Paul Martins, Marcel Costa e do apresentador Edu Parez.

"Pode soar audacioso quando falamos sobre a renovação do rock nacional, mas acredito que a chegada da internet e, principalmente, das redes sociais e plataformas digitais, nos possibilitou conhecer inúmeras bandas brasileiras de rock. Elas têm qualidade, capacidade e merecimento de fazer parte da programação das maiores rádios do Brasil e do mundo", afirmou Paul Martins. "Artistas independentes estão se profissionalizando, aprendendo sobre gestão de carreira, desenvolvendo novos modelos de negócios para o mercado da música e, com isso, estão gerenciando melhor as suas carreiras."

Ele se apoia em outra justificativa, desta vez polêmica, para a nova empreitada: "A cultura do rock nunca esteve tão em alta, mas os anos passaram e a forma de produzir e consumir música mudou. Precisamos acompanhar as transformações tecnológicas e de comportamento."

Soa um pouco otimista demais – será um visionário? – em um momento em que o rock desapareceu das programações de rádio e de TV, em momento em que nenhuma canção do gênero  aparece nas 100 mais medidas pela Nielsen e divulgadas pela Billboard.

Entretanto, são visionários como os caras da Curumin e do Autoral Brasil (e, por que não, o Combate Rock também), que estão conseguindo levar adiante boas ideias para divulgar novas bandas e novos projetos.

 

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

Sobre o Blog

O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
Contato: contato@combaterock.com.br