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Combate Rock

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O elogio da ignorância é o mote da nova ordem social brasileira

Combate Rock

04/02/2019 22h03

Marcelo Moreira

FOTO: REPRODUÇÃO INTERNET

Policiais que matarem indiscriminadamente poderão sair ilesos; "expulsar" deputado federal eleito e defensor de minorias virou mimimi, assim como pichar o carro de uma deputada estadual eleita no Rio de Janeiro no dia de sua posse; policial intimidar músico de rua em plena área de lazer virou "exemplo" de conduta das instituições de repressão.

Ninguém pode dizer que não foi avisado. E toda conversinha de que tudo isso não passa de "incidentes isolados" tem de ser devidamente rechaçada.

A onda conservadora que já está jogando o país nas trevas teve o capítulo mais asqueroso de uma semana que apenas começa no Rio de Janeiro. Depois de tomar posse na Assembleia Legislativa, a deputada estadual Dani Monteiro (PSOL) encontrou mensagens escritas em papel e riscos em seu carro. Eram ameaças de morte e frases racistas – ela é negra.

É o mesmo país que produz lixos humanos que ameaçaram e conseguiram mandar para o exílio o ex-deputado federal do PSOL Jean Wyllys, ativista dos direitos de LGBTs – ele renunciou ao cargo na semana passada.

É o mesmo país que manda para a prisão um inocente que era suposta e levemente parecido com o verdadeiro criminoso – foi apontado por ser negro e pobre.

E o que dizer então do suicídio de uma brasileira que era referência mundial em produzir provas contra bandidos escondidos em igrejas e seitas, como João de Deus e o "guru" Prem Baba? Perseguida, assim como outras mulheres que denunciaram, por assassinos de aluguel no Brasil e no exterior, não suportou mais a pressão.

Esqueça o papo de "sociedade doente". Trata-se de um país elitista e racista, que estimulou a sociedade a sempre privilegiar o mais forte e o mais rico, "grilando" várias da esfera pública e colocando-a a serviço de políticos corruptos, os mesmos que trocam favores com uma elite judiciária mais preocupada com os próprios privilégios do que promover a Justiça.

E, assim, caminhamos no nosso dia a dia observando os pequenos atentados à dignidade humana, com tratamento desumano a sem-tetos, e a intimidação grosseira, abusiva e abominável de policiais militares contra músicos de rua e comerciantes ambulantes em São Paulo.

Culminando com a segunda-feira de boas notícias, eis que o ministro da Justiça, Sérgio Moro, expôs o inacreditável plano de segurança do governo federal ultraconservador.

Entre outras preciosidades, permite "zerar" a pena de policiais que matarem em serviço e comprovarem "medo, surpresa ou violenta emoção". Isso é permitir que  os agentes repressivos do Estado matem indiscriminadamente e fiquem impunes, ampliando a violência estatal contra os pobres.

Ninguém pode acusar Jair Bolsonaro de mentiroso. ele está cumprindo o que prometeu, ainda que atropelando direitos humanos, bom senso, leis e inteligência – certamente o pacote de segurança de Moro contém inúmeras inconstitucionalidades, que serão apontadas e derrubadas.

A questão é que muito pouca gente se insurge contra essa política pública baseada simplesmente no combate. É a palavra que predomina nos discursos e declarações dos celerados que integram o governo.

"Vamos combater a corrupção, vamos combater a criminalidade, vamos combater a sonegação, vamos combater o comunismo, vamos combater a ideologia de gênero, vamos combater a arte degenerada, vamos combater os gays, vamos combater os movimentos sociais, vamos combater quem atravanca o desenvolvimento…"

É um governo que se resume a uma única palavra: combater. Administrar? Gerenciar? Inovar? Estimular crescimento e progresso? Para quê? Dá muito trabalho, não é?

Sem plataforma, sem plano de governo, sem inteligência e sem conteúdo, o governo Bolsonaro é o retrato da era em que vivemos: a mediocridade e a burrice não só imperam, como são elogiadas e impulsionadas. A ignorância é elogiada e o conhecimento é o inimigo.

O ataque à deputada estadual do Rio de Janeiro é apenas a superfície do "novo" tipo de sociedade que os ignorantes e obscurantistas querem implantar. Estejamos preparados para resistir.

 

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

Sobre o Blog

O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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