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Irmãos Cavalera celebram em SP fase clássica do Sepultura

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11/11/2018 07h00

Flavio Leonel – do site Roque Reverso

FOTOS: DIVULGAÇÃO/INSTAGRAM E REPRODUÇÃO/YOUTUBE

A capital paulista reviveu grandes momentos do heavy metal nacional no sábado, dia 3 de novembro, quando os irmãos Max e Igor Cavalera celebraram uma das fases clássicas do lendário grupo brasileiro Sepultura em ótima apresentação realizada no Tropical Butantã.

Com a casa de shows lotada por um público de diversas idades, mas predominantemente formado por pessoas contemporâneas ao período que marcou o auge do Sepultura, os membros fundadores da banda que é orgulho nacional entregaram aquilo que os fãs esperavam e fizeram muita gente voltar no tempo.

A passagem por São Paulo fez parte da turnê que passou por diversas cidades brasileiras.

Ela focou os lendários álbuns "Beneath The Remains" (de 1989) e "Arise" (de 1991).
Denominada "Max & Iggor Cavalera "89/91 Era", a turnê traz shows com basicamente 6 músicas de cada um dos discos fundamentais para quem gosta de Sepultura e alguns bônus clássicos de outros trabalhos da banda, hoje liderada pelo guitarrista Andreas Kisser, após as saídas de Max, em 1996, e de Igor, em 2006.

Além de Max e Igor, a banda que executou estes momentos memoráveis no Tropical Butantã contou na guitarra solo com o fiel escudeiro de Max Cavalera, o norte-americano Marc Rizzo, que acompanha o brasileiro no Cavalera Conspiracy (junto com Igor) e no Soulfly. O baixista de passagem pelo Brasil foi Mike Leon, também atualmente no Soulfly.

Chuva e escuridão

Como nada é fácil para o público headbanger no Brasil, a noite de sábado contou com uma tempestade recheada de ventos fortíssimos que derrubaram uma série de árvores por toda capital paulista. Com isso, boa parte das cercanias da casa de shows ficou completamente sem energia elétrica.

Para quem precisou caminhar a pé pelo bairro, a escuridão lembrava os cenários mais sombrios das letras mais assustadoras do heavy metal. Quem escolheu deixar o carro mais longe ou fazer uma caminhada mais longa para o pedaço que ficava mais próximo da Cidade Universitária talvez tenha precisado até de lanterna para conseguir enxergar os trechos.

Dentro do Tropical Butantã, o cenário era de uma verdadeira sauna. Com a casa lotada, a sensação de calor foi facilmente aumentada e muitos preferiram ficar ao lado das portas de emergência da casa para poder respirar ou sentir um ar mais fresco.

O show

A apresentação começou com o peso avassalador da música "Beneath The Remains", com direito à introdução clássica que abre o disco de mesmo nome. Com rapidez impactante conduzida pela máquina chamada Igor Cavalera na bateria e a pegada forte trazida pelas duas guitarras de Max e Marc Rizzo, muitos fãs das antigas devem ter se lembrado dos tempos que o Sepultura tocava nas saudosas casas de show Dama Xoc, Projeto SP e Aeroanta, bem antes da fama mundial.

Na sequência, o clássico "Inner Self", que é o preferido de muitos das antigas, elevou a empolgação logo de cara. Igor Cavalera, trajando a camisa do Palmeiras, que horas antes havia derrotado o Santos no Allianz Parque por 3 a 2 e ampliou a liderança do Campeonato Brasileiro de 2018, parecia empolgado como um adolescente descobrindo o heavy metal.

Dava gosto de ver a banda tocando com tesão e oferecendo o que o público desejava. Max Cavalera continua sendo um dos melhores frontmen do heavy metal. Não demorou para ele pedir uma roda de mosh aos fãs, que atenderam prontamente o vocalista depois dele soltar a frase "começa a destruição". Foi a primeira roda de respeito da apresentação, enquanto outras tantas cabeças não paravam de bangear.

Em tempos em que o ódio impera no Brasil, o grupo trouxe depois a faixa "Stronger Than Hate", que ficou marcada no show pelo solo de baixo de Mike Leon no final da música. Na sequência, foi a vez de outro clássico do "Beneath The Remains": nada menos que "Mass Hypnosis" e suas mudanças diversas de arranjo – uma verdadeira obra-prima do thrash metal.

Para fechar a fase do álbum de 1989, ainda rolaram "Slaves Of Pain" e "Primitive Future", ambas pouquíssimas vezes tocadas pelo próprio Sepultura nos shows destas duas últimas décadas. "Primitive Future" até foi tocada em shows da lendária banda em apresentações de 2015, mas "Slaves Of Pain" praticamente parou de ser executada pelo grupo desde os Anos 90, antes mesmo da saída de Max.

Max e Igor Cavalera em SP – Foto: Reprodução do YoutubeMax e Igor Cavalera em SP – Foto: Reprodução do YoutubeMax e Igor Cavalera em SP – Foto: Reprodução do YoutubeMax e Igor Cavalera em SP – Foto: Reprodução do Youtube

Fim da fase "Beneath The Remains" e espaço aberto para a fase "Arise". Com direito também à introdução do álbum, a música-título aqueceu ainda mais o Tropical Butantã.

Foi seguida pela ótima "Dead Embryonic Cells", que fez o público bater cabeça freneticamente no seu momento mais tradicional. Depois, os headbangers continuaram em êxtase com outro clássico: "Desperate Cry", seguida pela ótima "Altered State" e pela também pouquíssima tocada "Infected Voice".

A última do "Arise" na noite foi "Orgasmatron", cover do lendário Motörhead e faixa-bônus do disco de 1991 nas versões brasileira e europeia. Como a noite era de festa do heavy metal, os fãs ainda foram presenteados pelo ultraclássico "Ace of Spades", também do Motörhead, que já havia sido executado em 2016, no mesmo Tropical Butantã, quando a dupla comemorou, também em grande show, os 20 anos do álbum "Roots".

Detalhe que, em uma parte de "Orgasmatron" e na íntegra de "Ace of Spades", Max deixou a guitarra de lado e apenas encarnou o vocalista segurando o microfone. Foi estranho vê-lo sem a guitarra, já que a imagem clássica do frontman sempre foi com a guitarra nas mãos.

Após o descanso, o bis veio com os músicos tirando a introdução de outro clássico do heavy metal: nada menos que "Raining Blood", do Slayer. Infelizmente, só foi uma palhinha, mas a brincadeira foi muito bem recebida pelos fãs.

Foi então que o show contou com a música mais antiga do Sepultura tocada na noite. A boa e velha "Troops of Doom", do álbum "Morbid Visions", de 1986, gerou novas rodas de mosh e fez com que Max Cavalera pedisse aos fãs que fizessem o gesto que chamou de "mãos de fogo".

Nem bem acabou "Troops of Doom" e os músicos já emendaram o clássico "Refuse/Resist", do álbum "Chaos A.D.", de 1993. Cantada por todos, a canção gerou mais um momento bacana do show quando Max ordenou que se abrisse o "paredão da morte", o famoso "Wall of Death", que consiste na divisão da pista com uma parte dos fãs de um lado e a parte restante do outro, para, na sequência, a slamdancing, que nada mais é que um mosh generalizado.

"Só ficam os suicidas no meio", brincou o vocalista, que sabe como poucos contagiar o público no heavy metal e, ao mesmo tempo, arrancar risos da plateia. "Abre o Mar Vermelho, São Paulo", bradou, para, depois, ver a pista virar um mar de headbangers agitando feitos "loucos".

Na sequência, a obrigatória "Roots Bloody Roots" veio com a surpresa de Max retornar ao palco vestido também com a camisa do Palmeiras. Quem conhece o Sepultura dos velhos tempos sempre viu os irmãos Cavalera manifestarem a paixão pelo alviverde paulistano, assim como Andreas pelo São Paulo Futebol Clube e Paulo Júnior pelo Clube Atlético Mineiro.

Talvez, por isso, apesar do show reunir torcedores de diversos clubes, o respeito prevaleceu e não houve maiores insultos em relação à atitude do vocalista, como mandam as regras de povos civilizados. Como se esperava, a música gerou a catarse de sempre e empolgou o público presente.

Para fechar a noite com chave de ouro, os irmãos Cavalera decidiram fazer um medley com as músicas "Beneath the Remains", "Arise" e "Dead Embryonic Cells". Foi mais um presente para os empolgados fãs, que, sem dúvida, tiveram uma noite e tanto de thrash metal.

Comparação inevitável

Todas as vezes que os irmãos Cavalera fizeram shows no estilo do que foi realizado em São Paulo, tanto neste mês de novembro como no que aconteceu em 2016 no mesmo local, surgiram comparações com a atual formação do Sepultura. Correntes defensoras de um lado e de outro tentam provar que um lado é melhor ou que o outro foi o maior culpado pela separação no grupo. O inegável para qualquer fã de thrash metal é que Max e Igor tem papel fundamental naquilo que levou o Sepultura ao nível das maiores bandas do estilo mundialmente.

Também não é heresia alguma dizer que os irmãos juntos sempre foram a alma da banda e, justamente por isso, ainda conseguem trazer uma multidão tão grande quanto à vista nos shows do Sepultura atual.

Andreas Kisser e Paulo Júnior, sem a menor dúvida, foram guerreiros exemplares ao darem sequência ao grupo com dignidade, mas a banda sem os irmãos sempre vai deixar aquele famoso desejo de "quero mais" dos exigentes fãs do metal.

Com tantos grupos se reunindo, sendo alguns encontros inimagináveis até bem pouco tempo atrás, como o do Guns N' Roses, ainda não seria total loucura sonhar algum dia com um retorno da formação clássica do Sepultura ou até mesmo com a possibilidade de uma reunião do grupo com dois vocalistas (e até dois bateristas), já que Derrick Green também é um cara digno e Eloy Casagrande é um garoto com um talento espetacular.

Enquanto sonhar não paga imposto, fica a torcida. Não há dúvida que seria um dos retornos mais festejados da história do metal.

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

Sobre o Blog

O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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