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Roger Waters: novo álbum resgata um pouco da magia do Pink Floyd

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30/07/2017 06h48

 

Fabricio Carareto* – especial para o Combate Rock

Começo metendo a mão em um vespeiro: pode dizer o que quiserem, mas Roger Waters é o herdeiro legítimo do legado Pink Floyd. Ponto final. “Is this the Life We Really Want?” (2017) é prova disto.

O novo álbum mistura “Animals” (1977) com pitadas de “The Final Cut” (1983) – se bem que esse último já é quase um solo de Waters dentro do Pink Floyd.

Os temas envolvendo política, crítica social e religião são o que o de melhor Waters faz e já fazia nos tempos de Floyd. É só comparar esse trabalho com outros os outros três de inéditas lançados pelos seus ex-companheiros David Gilmour, Nick Mason e Richard Wright sob a marca Pink Floyd: “A Momentary Lapse of Reason” (1987), “The Division Bell” (1994) e “The Endless River” (2015). “Division”, sem dúvida, é o melhor dos três, mas longe de ser comparado musicalmente e liricamente ao Floyd que brilhou nos anos 70.

Primeira pergunta a se fazer sobre “Is this the Life”: por que Waters ficou tanto tempo sem lançar nada inédito? As músicas são inspiradas, as letras idem, com o velho e bom Roger de volta à antiga forma. E com a mira apontada para a mente e o coração de Donald Trump.

“When We Were Young” é uma introdução de um minuto e meio, nem dá para ser considerada uma música propriamente – lembra “On the Run”, do “Dark Side of the Moon” (1973).

A segunda canção é “Déjà Vu”, com uma bela melodia e bons arranjos. Aqui Waters já expõe a crítica religiosa – “If I had been God/With my staff and my rod/If I had been given the nod/I believe I could have done a better job” – e social – “The temple's in ruins/The bankers get fat/The buffalo's gone/And the mountain top's flat/The trout in the streams are all hermaphrodites/You lean to the left but you walk to the right”. (“Se eu tivesse sido Deus/Com a minha equipe e minha vara/Se tivessem me dado a chance/Eu acredito que poderia ter feito um trabalho melhor” – e social – “O templo está em ruínas/Os banqueiros estão gordos/Os búfalos se foram/E os topos das montanhas são planos/A truta nas correntes são todas hermafroditas/Você tende para a esquerda, mas anda para a direita”). A voz de Waters, já envelhecida, não perde o brilho.

Em seguida, “The Last Refugee”, canção sensível que toca em outro tema caro a Waters: a questão dos refugiados. Nos últimos anos, ele se tornou uma das vozes mais potentes em favor da questão palestina.

Não é surpresa então sua posição pró-refugiados. Em “The Last Refugee”, Waters destila sua crítica com delicadeza e poesia, lembrando inclusive a imagem comovente de um menino sírio que foi encontrado morto em uma praia da Turquia em 2015 – “And search the horizon/And you'll find my child/Down by the shore/Digging around for a chain or a boné/Searching the sand for a relic washed up by the sea'' (“E procure no horizonte/E você encontrará minha criança/Pela praia/Cavando em busca de uma corrente ou um osso/Procurando na areia por uma relíquia levada pelo mar”). Mas incomoda um pouco o que parece ser uma bateria eletrônica marcando o compasso. Uma sensação que, infelizmente, surge em outras músicas.

“Picture That” é quase um clone de “Sheep”, música de “Animals” (1977). Tanto na sonoridade quanto na crítica social. Waters puxa o gatilho e dispara para todo lado: “Picture a courthouse with no fucking laws/Picture a cathouse with no fucking whores/Picture a shithouse with no fucking drains/Picture a leader with no fucking brains” ( “Imagine um tribunal sem leis de merda/Imagine uma igreja sem uma prostituta/Imagine um líder sem uma merda de cérebro”.). Musicalmente, muda um pouco o astral que corria melancólico no álbum.

Voz e violão para “Broken Bones”, outra uma bela canção. Mas não se engane com a melodia assobiável e os celos: Waters não quer falar de romance neste álbum. A música poderia tranquilamente estar em “The Final Cut”, álbum que esculhamba os líderes da Guerra Fria da década de 80: “When World War II was over/Though the slate was never wiped clean/We could have picked over them broken bones/We could have been free/But we chose to adhere to abundance/We chose the American Dream” (“Quando a Segunda Guerra Mundial acabou/Nós poderíamos ter sido livres/Mas nós escolhemos aderir à abundância/Nós escolhemos o sonho americano”).

E por falar em American Dream… a cereja do bolo é a música que dá título ao álbum “Is this the Life We Really Want?”.

Ela começa com um discurso do mais novo inimigo número um de Waters, Donald Trump. O som cadenciado vai crescendo para que o ex-Pink Floyd dispare novamente contra tudo e contra todos, em um ataque à sociedade movida pelo medo, pela falsa sensação de democracia e com menção direta ao atual presidente dos EUA: “And every time a nincompoop becomes the president” (“E cada vez que um idiota se torna o presidente”).

Destaque à hilária e perspicaz comparação do ser humano com as formigas: ao mesmo tempo em que estamos presos às realidades virtuais dos realities show na TV, permanecemos indiferentes e silenciosos à miséria dos outros. Um soco na boca do estômago.

“A Bird in a Gale” é a música mais pesada do álbum. A distorção, aliada aos ecos e à voz gritada de Waters, relembra ainda que vagamente trechos de “Dogs”, também do “Animals” (1977). “The Most Beautiful Girl” volta mais com a linha balada, mas sem romantismo na letra. Músicas ok.

Roger Waters (FOTO: DIUVLGAÇÃO/FACEBOOK)

“Smell the Roses” tem sonoridade muito semelhante a “Have a Cigar”, do “Wish You Were Here” (1975). Aqui, o tema é também o terrorismo: “This is the room where they make the explosives/Where they put your name on the bomb/Here's where they bury the buts and the ifs/And scratch out words like right and wrong” (“Este é o quarto onde eles fazem os explosivos/Onde eles colocam seu nome na bomba/Aqui é onde eles enterram os ‘poréns’ e os ‘e se’/E rabiscam palavras como certo e errado”). Outra boa canção, com um raro solo – ainda por cima tímido – de guitarra.

As três últimas canções – “Wait for Her”, “Oceans Apart” e “Part of Me Died” – são, na verdade, uma só. Novamente Waters investe num tom mais intimista para detonar a indiferença, a cobiça e a belicosidade humanas.

Waters usa “Is this the life” como um panfleto da sua mensagem política e sua ideologia. Com isso, apesar das belas melodias, o álbum às vezes sofre com a ausência de uma sonoridade um pouco mais profunda em alguns pontos. Faltam guitarras e solos mais vigorosos, que certamente deixariam o álbum melhor. E irrita aquela sensação de que Waters optou por uma bateria eletrônica em várias canções – como na já citada “The Last Refugee”.

De resto, um excelente álbum que vale ser ouvido e absorvido na íntegra. O Pink Floyd, aquele velho Pink Floyd, ainda pulsa com Roger Waters.

* Fabricio Carareto é jornalista da CBN Grandes Lagos, de São José do Rio Preto (SP) e guitarrista nas horas vagas.

 

 

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

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O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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