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Noturnall impressiona em sua estreia nos palcos

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01/04/2014 06h47

Marcelo Moreira

Estreia de gala, com direito a convidado especial de peso. O rock está em baixa, assim como o metal nacional, em termos de público, mas nada disso parece incomodar o quinteto paulistano Noturnall, que surgiu há menos de seis meses das cinzas do Shaman, que oficialmente está "hibernando".  Destaque deste início de 2014, e não poderia ser diferente, o Noturnall é uma superbanda formada por quatro integrantes do Shaman mais o baterista Aquiles Priester (Hangar, ex-Angra), que chegou a fazer testes para subsitituir Mike Portnoy no Dream Theater.

"Noturnall", o álbum de estreia, estava previsto para ser o novo álbum da banda Shaman, mas as coisas mudaram bastante no meio do processo. Quatro integrantes aproveitaram os trabalhos de gravação de CD e clipe em Nova York e criaram o Noturnall no ano passado, com Priester. O vocalista Thiago Bianchi diz que o Shaman está "congelado", evitando dar maiores detalhes sobre as diferenças com o baterista Ricardo Confessori, o líder do Shaman.

"Na verdade, as agendas estavam em conflito, pois o Ricardo toca também no Angra. E as atividades dele na outra banda estavam emperrando a continuidade do Shaman. Isso estava me incomodando, pois eu sou músico e queria dar continuidade a minha carfreira, gravando discos e fazendo shows. Por isso surgiu o Noturnall. Foi a melhor solução para todos", diz o vocalista Thiago Bianchi, meia hora antes do show de estreia do grupo, no dia 29 de março.

noturnall

O baixista Fernando Quesada foi menos diplomático. "Fizemos um excelente trabalho com o Shaman no álbum 'Immortal', de 2008. A repercussão nacional e internacional foi enorme, mas as coisas não caminharam como deveriam depois disso, a banda teve muito pouca atividade. Foi extremamente frustrante termos aproveitado pouco o que aquele álbum nos proporcionou. Então, pode-se dizer que a frustração e a decepção com essas circunstâncias foram a origem do Noturnall".

O álbum teve a participação nos vocais e na produção de Russell Allen, vocalista do Symphony X e Adrenaline Mob. Tudo no álbum é de bom gosto e bem feito, com produção irretocável e arranjos bem estruturados, mostrando que os músicos tiveram tempo para criar e lapidar, além de contar com a produção executiva de Franz Bedacht, importante ponto de apoio no suporte.

Bianchi alterou levemente sua maneira de cantar, dando ao Noturnall um aspecto mais moderno e menos melódico, embora as notas agudas altíssimas estejam lá. É impossível não perceber uma influência direta de Allen no direcionamento musical, embora a produção leve a assinatura dele e de toda a banda. Os ecos de prog metal permeiam todo o trabalho, numa referência clara ao Symphony X e um pouco ao antigo Shaman. Entretanto, o som remete mais proximamente ao Adrenaline Mob, a cria de Allen com Mike Portnoy (ex-Dram Theater), embora mais pesado e mais rápido.

De alta qualidade, o álbum é homogêneo e praticamente não há lapsos. Na primeira audição têm-se a impressão de que as músicas são muito parecidas, mas nas seguintes as nuances vão aparecendo, especialmente o belíssimo trabalho de guitarras e a potente voz de Bianchi guiando, como nas duas primeiras, os grandes destaques do CD – "No Turn At All" e "Nocturnal Human Side", esta o primeiro single e primeiro clipe.

"St. Trigger" e "Master of Deception" mostram uma banda com muito groove, mais uma vez com ecos do Adrenaline Mob, afastando-se prudentemente do power metal reto com pitadas prog do Shaman de "Immortal". Merece um destaque também a bela "Fake Healers".

Produção de palco foi impecável para a estreia do Noturnall (FOTO: BULLINO INC./DIVULGAÇÃO)

Produção de palco foi impecável para a estreia do Noturnall (FOTO: BULLINO INC./DIVULGAÇÃO)

No show de estreia da banda, em um Carioca Club lotado, em São Paulo, o quinteto mostrou poder de fogo e produção de palco invejável para uma banda estreante, ainda que seja um nascimento "grande" e integrada por músicos excelentes e rodados. Som perfeito, produção grandiosa, efeitos de luzes de alta qualidade e um telão raramente encontrado em shows de médio porte. Tudo conspirava a favor, e banda não decepcionou, fazendo um show vibrante, energético e intenso, que foi gravado para um DVD a ser lançado em breve.

Entrosada e tinindo, o Noturnall entrou rasgando, com a introdução de um pequeno vídeo de terror. Com esperteza, a produção da banda optou por fazer um show com ingressos gratuitos mais um quilo de alimentos, a serem doados a uma instituição de caridade. Com casa abarrotada e muitos fãs dos trabalhos antigos, o jogo estava ganho.

Surpreendendo com uma qualidade impressionante – o grupo soa ainda melhor ao vivo -, o Noturnall tocou o álbum de estreia praticamente tocado na íntegra, com uma sequência matadora inicial com "No Turn At All", "St. Trigger", "Zombies", "Master of Decepction" e "Hate", entremeadas com "Inferno Veil", do quarto álbum do Shaman, "Origins".

Sem querer fazer muitas concessões aos trabalhos antigos de seus integrantes, a banda fez uma forte versão de "Symphony of Destruction", do Megadeth, com direito à participação de uma virtuose do violoncelo, Luiz Fernando Venturelli, de apenas 13 anos, que também fez bonito na balada "Last Wish".

Houve tempo ainda para uma patriotada desnecessária, com a execução do Hino Nacional brasileiro, com direito a bandeiras do país no telão e nas mãos de dois figurantes mascarados no palco, em referência aos 50 anos da ditadura militar e aos protestos que varreram as cidades no ano passado. Foi anticlimático, pois logo em seguida Russel Allen, o convidado especial, entrou com tudo e empolgado para participar da festa.

Allen (esq.) e Bianchi dizeram um excelente dueto em 'Nocturnall Human Side' (FOTO: BULLINO INC./DIVULGAÇÃO)

Allen (esq.) e Bianchi dizeram um excelente dueto em 'Nocturnall Human Side' (FOTO: BULLINO INC./DIVULGAÇÃO)

"Nocturnal Human Side", que teve Allen participando no estúdio e no clipe, ficou muito mais pesada e agressiva ao vivo, coroando todo o esforço que o Noturnall fez para transformar sua estreia em um dia memorável, que de fato foi mesmo. O convidado teve seu momento solo ao cantar a maravilhosa "Stand Upd and Shout", de Ronnie James Dio, para depois se juntar novamente a Bianchi no encerramento apoteótico da apresentação com "War Pigs", do Black Sabbath.

Pelo que vimos no Carioca Club, o Noturnall começou por cima e com fôlego enorme em um mercado ainda se adaptando as condições do século XXI. A sua estrutura é de invejar qualquer banda de médio porte, a ponto de Aquiles Priester mostrar uma empolgação poucas vezes vista em projetos anteriores seus. Tudo deu certo, já que a banda nasceu grande. A prova de fogo começa a partir de agora, quando a realidade bater à porta mostrando os obstáculos mais do que conhecidos. Entretanto, pelo que foi visto no show paulistano, o quinteto tem forças e capacidade para passar como um trator e ocupar o lugar que um dia foi do Angra dentro do metal nacional.

 

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

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O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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