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Pete Townshend queria morrer antes de ficar velho, mas chegou aos 75 anos

Combate Rock

19/05/2020 20h47

Marcelo Moreira

foto: divulgação

Pete Townshend (foto: divulgação)

Ele pregou ainda menino que queria morrer antes de ficar velho, em um surto de frustração juvenil, mas que reverberou por décadas em uma das mais icônicas canções do rock – "My Generation".

Por maior que seja a ironia, ele continua tocando a música nos palcos, cinco décadas depois e às vésperas de completar 75 anos (no dia 19 de maio).

Assim como o companheiro septuagenário Roger Daltrey, Pete Townshend, o cérebro do Who, é avô – Daltrey, na verdade, já é bisavô, assim como Mick Jagger.

Milionário e completamente realizado, homenageado na Inglaterra e nos Estados Unidos com as maiores honrarias culturais, desacelerou, mas ainda resiste ao óbvio: depois de 56 anos, o Who precisa parar, ao menos em relação aos palcos.

Parecia que isso ocorreria em 2017, mas dupla resolveu adiar a aposentadoria com mais uma turnê norte-americana, agora com orquestra, e o lançamento de um álbum, "WHO", no ano passado, após 13 anos sem disco de inéditas. É o resukltado de um trabalho encalacrado há anos.

O outrora prolífico compositor passou por um período de bloqueios criativos, se é que podemos qualificar a sua relação de trabalho de 20 anos para cá.

Bastante envolvido com projetos de celebração de suas grandes obras-primas, como filmes, documentários, sinfonias e musicais com base em álbuns como "Tommy" e "Quadrophenia", deixou de lado a verve de escritor.

Desde 1993, quando lançou o álbum solo "Psychoderelict", só produziu as músicas para "Endless Wire", o primeiro álbum do Who em 24 anos, além de duas faixas inéditas incluídas em uma coletânea, em 2004.

É muito pouco, mas o intelectual Pete Townshend assumiu sua faceta de artista multimídia e versátil, para desespero de Daltrey.

Após o gito mundial de 2016-2017, finalmente o guitarrista voltou aos estúdios para ajudar Daltrey em seu álbum solo, de 2018, e para terminar as músicas de "WHO", um disco bem bacana, com um resgate de uma sonoridade nostálgica, setentista, mas buscando se aproximar de novas geraçlções com temas mais atuais. Um bom momento para se comemorar 75 anos, para alívio de quem gosta de boa música.

Townshend disputa desde sempre o posto de melhor letrista do rock inglês com Ray Davies, dos Kinks. São dois gênios que apostaram em vários momentos nos retratos da vida e do cotidiano do cidadão inglês.

Daltrey (esq.) e Townshend em São Paulo (FOTO: DIVULGAÇÃO/MERCURY CONCERTS)

Davies, no começo, era maisa sofisticado e se especializou em crônicas, vamos dizer assim. Adora contar historinhas em suas músicas, enquanto que Townshend deixou os temas adolescentes para rapidamente emergir no mundo dos sentimentos e da autorreflexão.

Quando decidiu contar histórias, criou as obras-primas "Tommy" e "Quadrophenia", que tiveram a gênese em duas pequenas suítes gravadas entre 1966 e 1967, "Rael" e "A Quick One, While He's Away".

O Who se tornou uma usina poderosa de peso e hinos a partir de "Tommy", em 1969, sendo a banda que mais vendia ingressos e discos na primeira metade dos 70 ao lado de Led Zeppelin, Rolling Stones, Faces e Elton John, enquanto os Kinks mergulhavam em um período de incertezas e se tornava uma banda cult.

Escritor de contos e de musicais, Townshend também foi editor na inglesa Faber & Faber, reforçando o seu interesse por literatura.

Dá para comparar sua obra com a de Bob Dylan? O fato de o norte-americano ter ganho p prêmio Nobel de Literatura em 2018 já responde a questão, mas a poesia de Townshend já foi elogiada por gente distinta da imprensa e do mundo dos livros. Certamente ainda ganhará, algum dia, um prêmio ou menção literária na Inglaterra.

Projetos e reedições

Se a vida anda mais mansa, mesmo com a atual turnê em andamento, sua obra é cada vez mais reverenciada. "Quadrophenia", talvez a mais ambiciosa obra da banda The Who, já se transformou em musical da Broadway, nos teatro londrino e em longa-metragem com direito à participação de Sting como um dos protagonistas.

Quarenta e sete anos depois, a obra-prima composta pelo guitarrista Pete Townshend vira uma peça composta para orquestra – uma verdadeira ópera.

O negócio é tão importante que a gravadora alemã Deutsche Grammophon, a mais importante do mundo no segmento de música erudita, produziu um concerto  da nova versão sinfônica da ópera-rock.

A nova versão  foi orquestrada por Rachel Fuller, multiminstrumentista, compositora e regente, que ficou quatro anos trabalhando exaustivamente nas partituras originais. Não bastassem todas as qualificações, ela é a atual mulher de Townshend.

Um dos mestres do inconformismo britânico dos anos 60, Townshend teve direito, recentemente, à reedição de sua discografia solo. Townshend autorizou a venda serviços como o iTunes e o Spotify.

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Assim como vários artistas que relutaram em vender suas músicas nas lojas digitais, o astro britânico tinha reservas quanto à qualidade de som do formato, além de questionar a remuneração de royalties proporcionada por esses serviços.  Curiosamente, a maior parte dos trabalhos do Who está no iTunes há muito tempo.

O acordo com a UMC/Universal Music incluiu os álbuns "Who Came First", de 1972, "Rough Mix", de 1977 (este dividido com o amigo Ronnie Lane, dos Faces, que morreu em 1998), "Empty Glass", de 1980, "All The Best Cowboys Have Chinese Eyes", de 1982, "Scoop", de 1983, "White City", de 1985, "Deep End Live", de 1986, "Another Scoop", de 1987, "Iron Man: The Musical", de 1989, "Psychoderelict", de 1993 e "Scoop 3″, de 1994.

Obra de respeito, mas irregular

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Townshend relutou em lançar um álbum solo, apesar dos companheiros de Who Roger Daltrey (vocal) e John Entwistle (baixo) terem partido antes para suas iniciativas pessoais.

Desgostoso com o fracasso do projeto "Lifehouse", confuso e polêmico, motivo de brigas entre os integrantes da banda, o guitarrista foi convencido pelo amigo Billy Nicholls, cantor britânico de relativo sucesso nos anos 70, a fazer a sua estreia solo em 1972

"Who Came First" é quase um tapa na cara dos fãs da banda, de tão rústico e simples. Gravado no estúdio caseiro de sua ampla casa em Londres, aproveitou muita coisa que ficou de fora de "Who's Next", de 1971, o álbum maravilhoso do Who que continha o que de melhor "Lifehouse" ofereceu.

As canções que sobraram foram retrabalhadas e gravadas de forma quase amadora, sem muitos overdubs e abusando do formato acústico, sem polimento nos arranjos.

Townshend estava no auge de seu envolvimento com a cultura indiana e os ensinamentos do guru Meher Baba, que se refletiram no quase mantra melancólico "Parvardigar". Também produziu baladas singelas, como "SheratonGibson", e a lúdica "Time Is Passing", escrita originalmente para o Who.

"Content" é uma tentativa erudita de musicar um poema da escritora Maud Kennedy, com resultado razoável, No restante do álbum, um clima de saco cheio perdura, com pete afundando na bebida e em alguns aditivos mais pesados. "Pure and Easy" é uma sobra direta de "Lifehouse" e foi editada em lados B e coletâneas do Who.

A versão caseira do guitarrista é exatamente isso: uma versão caseira descuidada. "Let's See Action", single de 1970 com bom desempenho nas paradas, segue pelo mesmo caminho.

Sem muito mais a oferecer e um desiludido, deixou Nicholls cantar uma faixa própria, "Forever's No Time At All" (Billy Nicholls, Katie Mclnnerney), uma balada folk pop sem inspiração.

Fez o mesmo com Ronnie Lane, então amigo inseparável na época, que registrou "Evolution" de forma acústica, com acento folk. "There's A Heartache Following Me", de Ray Baker e eternizada por Jim Reeves, melhora um pouco as coisas, caminhando mais para o blues.

"Who Came First" é fundamental para a carreira do artista e do Who, embora seja "caseiro" demais e tenha poucos momentos realmente inspirados.

Em meio à depressão criativa por conta de "Lifehouse", o álbum e seu processo lento e caótico de produção o mantiveram em atividade e lançou as sementes para o excelente "Quadrophenia", do Who, ópera-rock mais ambiciosa e ousada do que "Tommy", e que foi lançada em 1973.

Quanto aos outros álbuns, a sequência de três "Scoops" é interessante por reunir sobras de estúdio e ideias descartadas para o Who, ou versões de diferentes, em formato demo, para alguns sucessos da banda. São coletâneas de raridades. Já o colaborativo "Rough Mix", de 1977, foi quase uma forma de passar o tempo ao lado do amigo Ronnie Lane.

Os dois dividiram o álbum igualmente, e convidaram um monte de amigos para ajudar, como Eric Clapton e o rolling stone Charlie Watts. Juntos, mesmo, tocaram em apenas duas faixas, incluindo a melhor de todas, "Heart to Hang on To", de Townshend, que fecha o álbum com dueto vocal bluesy entre os dois. Um bom trabalho, mas sem maiores destaques.

Grandes obras

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Os filés mesmo são "Empty Glass" e "All The Cowboys Have Chinese Eyes", do começo dos anos 80, produzidos em uma época o Who soçobrava e o guitarrista afundava na bebida (ainda mais), nas drogas e virava sua vida pessoal do avesso, sem falar em um certo sentimento de culpa pela morte de Keith Moon, o insano baterista da banda, em 1978.

Confessionais e sinceros, beirando ao desespero, os dois álbuns trazem as melhores canções solo dele, algumas recusadas pelo Who para os discos "Who Are You" (1978), "Face Dances" (1981) e "It's Hard" (1982).

"Sombedy Saved Me" é emocionante, falando dos demônios pessoais e tendências suicidas, temas que também aparecem na excelente e tocante "Slit Skirts" e nas angustiadas "I Am a Animal" e "A Litte Is Enough".

O otimismo e menos melancolia aparecem em "Rough Boys", uma ode aos punks, na romântica e um pouco melosa "Let My Love Opne the Door" (mais sentimento de culpa na jogada, em relação à esposa e filhas).

"Stop Hurting People" e a ótima "The Sea Refuses No River" fecham a relação de bons temas evidenciando que Townshend, conhecido como excelente compositor e guitarrista, assim como letrista, tinha estofo para se aventurar na área da canção com talento e habilidade, com um direcionamento mais pop, conseguindo um reconhecimento crítico que o companheiro Daltrey não conseguiu.

Nos outros álbuns, há um punhado de boas ideias, mas sem grande brilho. Ele aprofundou a colaboração com o guitarrista David Gilmour (Pink Floyd) em "White City", com os dois se dando muito bem nas duas melhores músicas, "Give Blood" e "White City Fighting", rocks diretos e sem muitas firulas, O destaque, é claro, é a jazzística e estupenda "Face the Face", seu maior hit solo.

"The Iron Man", baseado em um livro infantil de Ted Hughes, reuniu convidados, como John Lee Hokker, Nina Simone, Deborah Conway e os companheiros Daltrey e Entwistle.

Duas músicas foram creditadas a The Who na execução – "Dig" e "Fire" (cover de Arthur Brown), fato que levou a banda a se reunir novamente para shows após sete anos. Tem bons momentos, mas é apenas razoável.

Já "Psychederelict" é uma tentativa de aliar teatro ao rock, mas com a proposta de ir além da ópera-rock. Com a presença de atores desempenhando papéis, como se fosse "novela de rádio" – incluindo a participação deles nos shows de divulgação -, é um trabalho de alta qualidade, mas um pouco difícil de digerir devido à ousadia da iniciativa, sem falar em certa pretensão.

Infelizmente, os resultados em vendas não foram o esperado, e Townshend só voltou a compor músicas novas em 2004, para o Who, incluídas em uma coletânea de aniversário de 40 anos de carreira.

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

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O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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