Combate Rock

Enxuta e urgente, nova biografia do Sepultura é um bom resumo de 3 décadas

Combate Rock

Marcelo Moreira

sepa

Rápido, urgente e frenético, na toada da música forte e extrema do Sepultura. “Relentless”, a nova biografia da banda brasileira, já está nas livrarias e se tornou o principal registro da carreira do grupo – até por falta de opções mais atualizadas.

O livro em português foi editado pela editora Benvirá. A versão original saiu em 2014 nos Estados Unidos e na Polônia e uma versão para o Brasil estava programada para o comecinho do ano passado, mas as negociações com  editoras brasileiras demoraram.

Jason Korolenko, o autor, é um escritor conceituado nos Estados Unidos, já escreveu romances e também trabalha como jornalista. apaixonou-se cedo pelo heavy metal do Sepultura e, por tabela, pelo Brasil – sua lista de amigos por aqui é imensa, o que lhe  rendeu também um casamento com uma brasileira.

Antes do lançamento do livro, Jason Korolenko falou com exclusividade ao Combate Rock sobre a obra e a trajetória da banda. Clique aqui para ler a entrevista.

Sem firulas e com texto enxuto, Korolenko repassa toda a carreira  do Sepultura em ordem cronológica. Dá preferência à narração dos fatos e às entrevistas, sem tanto espaço para análises, conjecturas e contextualizações mais aprofundadas. Neste aspecto, sua obra difere, e muito, do tipo de biografia musical que jornalistas e escritores britânicos praticam.

Para suprir a presença menor de um texto com mais estofo, fez o que todo bom jornalista costuma fazer – muitas e muitas entrevistas, com entrevistados selecionados e relevantes.

A história é contada pelos integrantes que se dispuseram a falar, além de vários amigos da banda, empresários, produtores, jornalistas fãs que devotam suas vidas à banda e músicos brasileiros e estrangeiros. A narrativa é ágil, veloz e quase sempre certeira. Deve agradar à maioria.

Entretanto, existem algumas escorregadas, mas nada comprometedor. A mais “grave” delas nem é culpa do autor. Os irmãos Max e Iggor Cavalera, como era previsível, se recusaram a participar do projeto, assim como Gloria Cavalera, a mulher de Max e ex-empresária.

Diante disso, é evidente que o livro é desequilibrado, e não havia como ser diferente. Prevalecem as histórias e opiniões de Andreas Kisser, o guitarrista e principal fonte e, em menor escala, de Paulo Jr, o baixista e único remanescente da formação original.

Formação clássica do Sepultura

Formação clássica do Sepultura

O desequilíbrio se acentua também na lista de entrevistados, quase todos amigos e próximos da formação do Sepultura que permaneceu depois da saída de Max Cavalera, em 1996, e de Iggor, em 2006. No entanto, dosa bem as partes históricas, entre as eras Max e sem Max.

Outro pecado são as simplificações e imprecisões na tentativa de fazer uma contextualização histórica do Brasil e suas eventuais influências no surgimento e formação do Sepultura.

Korolenko teve uma boa ideia ao tentar dar um panorama político-econômico do Brasil desde o final do século XIX, acentuando um caráter elitista e autoritário da sociedade brasileira ao longo do século passado.

Era uma tarefa difícil em poucas páginas, e ainda contendo algumas imprecisões. O resultado é que ficou complicado estabelecer nexos causais entre a vida dos irmãos Cavalera em São Paulo e Belo Horizonte na infância e a juventude e o clima tenebroso da ditadura militar brasileira.

O autor vende a ideia de que, dependendo do tipo de atuação artística, podia-se ir para a prisão no Brasil. Isso é verdade, mas dez anos antes do início do interesse dos meninos por música e mais tempo ainda antes do surgimento do Sepultura, em 1984 – quando a banda foi fundada, a ditadura esfarelava e logo haveria um presidente civil, um ano depois, por mais que ainda persistisse um odioso e imbecil departamento de censura, que durou até 1988.

Entre os méritos do livros estão diversos esclarecimentos de fatos antes tidos como verdadeiros e a confirmação de boatos que, na verdade, eram verdade, o que demandou um trabalho duro e criterioso de pesquisa e cruzamento de informações.

Também chama a atenção o desvendamento, ao menos em parte, dos bastidores da separação entre Max e o resto da banda, em dezembro de 1996.

Korolenko arrancou de Andreas detalhes sobre o clima ruim e as brigas ocorridas no segundo semestre daquele ano, onde aflorou todo o descontentamento com o gerenciamento de Gloria Cavalera, empresária do grupo e mulher de Max.

O ressentimento fica claro nas declarações a respeito de um distanciamento de Max do resto dos integrantes e equipe e de um sentimento de privilégio a ele por parte da empresária. Também há histórias e reproduções de diálogos de Iggor da época da separação.

Sepultura (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Sepultura versão 2016 (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Uma coisa que talvez incomode alguns leitores é o clima de proximidade de Korolenko com Kisser e Paulo Jr. Em nenhum momento o autor nega que seja muito fã do grupo e que seja próximo da atual formação, inclusive do atual vocalista, Derrick Green.

Korolenko elogia bastante os álbuns pós-1996, descreve minuciosamente seus processos de criação e gravação e, com alguns exageros, enxerga certos méritos que talvez tais trabalhos não tenham.

No posfácio da edição brasileira, acrescido especialmente para o público daqui e escrito em novembro de 2015, o autor dá uma atualizada na história da banda de 2014 para cá, mas acaba passando por cima de um fato importante: o rompimento da relação empresarial entre Sepultura e Monika Bass Cavalera, ex-mulher de Iggor.

A separação não foi amigável em março de 2015, mas foi discreta. E Monika é uma das personagens principais – e fonte importantíssima – do livro e era a última Cavalera que ainda resistia no círculo da banda. Houve uma simples menção ao rompimento e nada mais.

“Relentless” (Implacável), por enquanto, é a obra de referência sobre o Sepultura neste século, pois abrange os 30 anos de história do grupo. “Sepultura – Toda a História”, de André Barcinski e Silvio Gomes, é importante e tem uma narrativa mais sofisticada e elaborada, mas foi lançado em 1999 e nunca foi atualizado – Korolenko inclusive elogia a obra.

Para quem quer saber sobre a banda brasileira de rock mais importante de todos os tempos, “Relentless” é necessário.

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

Sobre o Blog

O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
Contato: contato@combaterock.com.br

ID: {{comments.info.id}}
URL: {{comments.info.url}}

Ocorreu um erro ao carregar os comentários.

Por favor, tente novamente mais tarde.

{{comments.title}}

{{comments.total}} Comentário

{{comments.total}} Comentários

Seja o primeiro a comentar

{{subtitle}}

Essa discussão está encerrada

Não é possivel enviar novos comentários.

{{ user.alternativeText }}
Avaliar:
 

* Ao comentar você concorda com os termos de uso. Os comentários não representam a opinião do portal, a responsabilidade é do autor da mensagem. Leia os termos de uso

Escolha do editor

{{ user.alternativeText }}
Escolha do editor

Combate Rock
Combate Rock
Combate Rock
Combate Rock
Combate Rock
Combate Rock
Combate Rock
Combate Rock
Combate Rock
Combate Rock
Combate Rock
Combate Rock
Combate Rock
Combate Rock
Combate Rock
Combate Rock
Combate Rock
Combate Rock
Combate Rock
Combate Rock
Combate Rock
Combate Rock
Combate Rock
Combate Rock
Combate Rock
Combate Rock
Combate Rock
Combate Rock
Combate Rock
Combate Rock
Combate Rock
Combate Rock
Combate Rock
Combate Rock
Combate Rock
Combate Rock
Combate Rock
Combate Rock
Combate Rock
Combate Rock
Combate Rock
Combate Rock
Combate Rock
Combate Rock
Combate Rock
Combate Rock
Combate Rock
Combate Rock
Combate Rock
Combate Rock
Combate Rock
Topo