Combate Rock

Sepultura 30 anos: nova biografia finalmente é publicada no Brasil

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Marcelo Moreira

Demorou, mas finalmente está no mercado brasileiro uma nova biografia do Sepultura em português. O livro há muito tempo era esperado, já que seu autor, o jornalista norte-americano Jason Korolenko, prometia informações diferentes e novas interpretações a respeito de algumas polêmicas sobre a história da mais importante de todas as bandas brasileiras de rock.

“Relentless – 30 anos de Sepultura” chega oficialmente nesta quarta-feira ao mercado brasileiro pela editora Benvirá, que tem feito bom trabalho na edição de obras sobre música e bandas de rock. O livro foi editado nos Estados Unidos e na Polônia no final de 2014.

Casado com uma brasileira, Korolenko tem uma afinidade grande com o rock brasileiro e é um admirador confesso da banda. Metódico, pesquisador dedicado e com bom texto, o autor segue, em parte, a escola britânica de biografias de rock, dando uma atenção especial à contextualização histórica e a informações sobre o mercado musical desde 1985.

A obra chega para ocupar, em parte, a lacuna biográfica a respeito da principal banda brasileira neste século. O elogiado livro “Sepultura – Toda a História”, de André Barcinski e Silvio Gomes, foi considerada por muito tempo a obra definitiva sobre o grupo, em português – por Korolenko também, inclusiva. Publicado em 1999, não foi atualizado em novas versões, até onde se sabe.

“Relentless” (implacável, em inglês) supre essa falha literária incompreensível e chega para se tornar, neste momento, a principal referência biográfica não só em português. Se perde na questão dos bastidores e das histórias paralelas em relação ao livro de Barcinski e Torres, obviamente avança na questão da pesquisa e das entrevistas mais abrangentes, com a vantagem de ter 15 anos a mais para abordar.

Em entrevista exclusiva ao Combate Rock, por e-mail, Korolenko fala sobre o orgulho de ter conseguido concluir uma obra difícil e sobre a importância do Sepultura para a música pesada mundial em todos os sentidos:

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Havia uma previsão de lançamento do livro em 2014. Por que o atraso?
O livro foi terminado em 2014 e publicado em inglês e polonês no mesmo ano. A editora brasileira sofreu um atraso devido a algumas considerações legais, o que não cabe a mim discutir.

Quando você anunciou em redes sociais que lançaria a biografia do Sepultura, muita gente o criticou dizendo que você pretendia dar uma “resposta” à autobiografica de Max Cavalera. Houve algum tipo de motivação neste sentido?

Quanto ao anúncio do livro, o momento foi uma mera coincidência. Eu comecei a escrever “Relentless” ao mesmo tempo que Joel McIver começou a escrever seu livro com o Max. A autobiografia saiu primeiro, mas eu escolhi não lê-lo até ter terminado de escrever “Relentless” porque não queria que meu livro fosse influenciado de nenhum modo, mesmo inconscientemente.

Já foram lançadas biografias da banda no Brasil, escritas por jornalistas que até hoje afirmam que têm amizade estreita com integrantes e ex-integrantes. O que “Relentless” acrescenta em temos de novidades á conhecida história do Sepultura?

Eu só tenho conhecimento de um outro livro além da autobiografia do Max, o “Toda a História”, de Silvio Gomes e André Barcinski, um livro fantástico. Esse livro foi publicado em 1999, assim é natural que não contenha uma boa parte da história do grupo (inclusive a história por trás da saída do Igor). Eu tive muita sorte em ter feito amizade com membros da banda, tanto do passado como do presente, bem como alguns de seus familiares, e de ter conversado longamente com pessoas envolvidas em cada estágio da carreira do Sepultura. “Relentless’ também contém o comentário impresso dos álbuns mais extenso e detalhado, mais de 70 fotos (a maioria das quais nunca tinha sido vista antes), e uma grande quantidade de informação até então não revelada.

Max e Iggor Cavalera contribuíram de alguma forma com o seu livro?

Infelizmente, Igor recusou se envolver com o livro, e depois de ter conversado com a Gloria Cavalera, eu entendi que o Max tampouco se envolveria. No entanto, pude conversar com pessoas que cresceram com os irmãos ou que fizeram parte, de uma maneira ou de outra, do nascimento e desenvolvimento do Sepultura nos primeiros anos da banda.

Andreas Kisser se tornou o “dono” do Sepultura após as saídas de Max e Iggor. Descontando as mudanças drásticas no mercado musical, como você avalia o impacto na carreira da banda da “administração” Kisser?

Eu acho que o Sepultura de agora é mais profissional do que nunca. A banda é a atividade profisisonal deles, ganham a vida com isso, é com a música que pagam suas contas e alimentam suas famílias. É muito fácil romancear a vida dos músicos que viajam em turnês, mas equilibrar a música e os negócios exige um grande esforço. O Andreas vive e respira Sepultura. O que tem mantido a banda – e a marca que ela representa- viva e prosperando é a “administração” Kisser, como você diz,, mesmo durante alguns anos difíceis para o grupo.

A autobiografia de Max decepciona em muitos momentos, mas sobretudo a respeito dos motivos da separação ocorrida em 1996. Ele dá apenas algumas pistas, xinga e desqualifica alguns personagens, mas não revela detelhes. O que é possível encontrar de novidade a esse respeito?

A minha intenção foi a de ir tão fundo na historia da banda quanto pudesse e, ao mesmo tempo, permanecer o mais neutro possível. Com relação à separação da banda em 1996, “Relentless” contém alguns detalhes que, creio eu, nunca foram revelados antes em entrevistas ou artigos sobre a banda.

Mais uma vez citando Max Cavalera, para ele Paulo Jr. sempre foi um mau baixista. Em suas pesquisas foi possível encontrar opiniões que corroborassem essa visão?
Paulo é um bom músico, um bom baixista e uma engrenagem essencial na máquina do Sepultura até hoje. Eu não achei necessário mencionar as opiniões do Max sobre ele porque são somente suas opiniões. No entanto,  escrevi sobre as razões que levaram o  Paulo a não tocar baixo nas primeiras gravações.

Formação clássica do Sepultura

Formação clássica do Sepultura

>Muitas fãs do Sepultura no Brasil costumam dizer que a passagem de Max Cavalera pelos Estados Unidos em 1989 em busca de contratos com gravadoras é um fato pouco explorado por biógrafos e jornalistas. Como você avalia hoje a a receptividade que ele teve na época e como foi possível que um garoto cabeludo e com inglês precário conseguisse sucesso ao convencer personagens do mercado americano a acreditar em uma banda obscura do Brasil?

A história da vinda do Max aos Estados Unidos assumiu um aspecto quase mitológico com o passar dos anos. Ela é bem “rock and roll”, não é?  A verdade é que ele teve muita ajuda e apoio de profissionais da indústria da música nos Estados Unidos, que já o conheciam um pouco e se interessavam pela música do Sepultura. É uma história incrível de persistência e dedicação – a idéia de que esses quatro garotos brasileiros pudessem ter um enorme impacto na evolução do heavy metal em nível internacional, em uma era pré-internet.

A formação atual do Sepultura continua as comemorações dos 30 anos de carreira e anuncia para breve o lançamento de uma espécie de documentário oficial. De alguma forma “Relentless” pode ser um produto a integrar o “pacote” comemorativo da banda?

Não creio. A banda me apoiou desde o início e aprovou a idéia do “Relentless” ser escrito (inclusive contando histórias, aceitando entrevistas comigo, cedendo fotos pessoais, o uso do seu logo, etc), mas o livro é um produto “oficial” do Sepultura.

A questão da reunião da formação clássica, seja para um show ou de forma definitiva, ainda é um assunto que fascina os fãs, principalmente no Brasil. Diante de suas pesquisas para o livro, você acredita que exista alguma chance de acontecer? 

Ao mesmo tempo que é impossível prever o futuro (por exemplo, Axl e Slash acabam de reunir no Guns N’ Roses e aposto que ninguém tinha previsto isso), eu pessoalmente acho que uma reunião do Sepultura “clássico” jamais acontecerá. A fissura foi muito mais profunda do que a maioria das pessoas sabe.

Essa eventual reunião faria sentido? Qual a relevância que teria para a carreira da banda e para o mercado em geral?

É complicado especular sobre o impacto que uma reunião dessas teria sobre a cena musical como um todo. O metal – e a indústria musical em geral- é uma arena dura nos dias de hoje. Por diversas razões, eu acho que uma reunião dos Cavalera com o Andreas Kisser e o Paulo Jr. não satisfaria as expectativas dos fãs. Existem muitas emoções envolvidas, muita nostalgia. Eu acho que devemos deixar o passado no passado e aproveitar o que temos hoje. 

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

Sobre o Blog

O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
Contato: contato@combaterock.com.br

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